segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Da Estônia para Americana, por um cavalo

Babá de cavalo. É o que melhor definiria o trabalho de Paul Turu, o estoniano de 28 anos que num final de tarde deste mês escovava com esmero os pelos castanhos de Peintre Celebre, o famoso garanhão europeu, campeão das pistas do turfe francês, que, aos 18 anos de idade, veio a Americana para prestar “serviços de reprodução” às éguas de um empresário dos ramos têxtil e siderúrgico. Dentro do estábulo, o cavalo parecia à vontade, ainda que os trovões que soavam do lado de fora o deixavam curioso. De onde Peintre Celebre veio, a Irlanda, sons do tipo são raros. “Fico imaginando o que ele deve estar pensando com todo esse barulho lá fora”, questiona-se Paul, num inglês carregado por um sotaque próximo ao alemão.

Desde os 20 anos, quando saiu da Estônia, Paul tem a missão de acompanhar cavalos que são conhecidos pela qualidade reprodutora. Ele já passou por Inglaterra, Irlanda, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e França, sempre seguindo os animais. Os países para onde viajam, porém, não são escolhidos aleatoriamente. Além da necessidade de quem contrata os “serviços” dos garanhões, a chegada a um novo local depende também da estação do ano. A temporada de reprodução no Brasil, por exemplo, vai de agosto a janeiro, quando as temperaturas marcam índices amenos.

Paul e Peintre Celebre desembarcaram em Americana em agosto do ano passado. A rotina da dupla começa bem cedo. Por volta das 6h30, ele leva o garanhão para uma caminhada, o que chama de “aquecimento”, e aproveita para deixá-lo se alimentar do pasto da fazenda. Pela tarde, o cavalo passa por uma higienização, faz as necessidades fisiológicas e se prepara para a reprodução com as éguas da fazenda. Apesar de não revelar cifras nem resultados, considerados confidenciais, Paul garante que Peintre Celebre tem feito um bom serviço e elogia o animal. “É um cavalo fácil de lidar e muito bem comportado”. Talvez por isso seja um dos garanhões mais viajados do mundo. “Ele já esteve em mais países do que eu, como no Japão”, conta.

O objetivo de estar ao lado do garanhão, explica Paul, é tentar manter a rotina e o ambiente do animal em qualquer lugar do planeta. Mas este acompanhamento pessoal dos cavalos não é comum. Geralmente, os próprios funcionários das fazendas que recebem os animais acabam prestando os cuidados necessários. O estoniano revela, porém, que se trata de uma opção da Coolmore Stud, a empresa irlandesa que ele representa. “É diferente quando você tem que cuidar de vinte cavalos e de um. Acreditamos que seja melhor desta maneira”.

A Coolmore é uma das maiores empresas do mundo que lidam com o chamado horse breeding, a reprodução de cavalos dirigida e seletiva. A intenção de quem procura pelos garanhões de empresas como ela é a tentativa de, com o acasalamento planejado, conseguir filhotes com características específicas. Além disso, este tipo de reprodução conta muitas vezes com tecnologias para aumentar a taxa de concepção e proporcionar uma gravidez saudável e um parto bem sucedido aos animais.

Segundo dados da CNA, a Confederação da Agricultura e Pecuária, o setor de criação de cavalos de raça e atividades relacionadas movimentam R$ 7,5 bilhões anualmente no país. No entanto, investir em garanhões ainda é privilégio de poucos endinheirados. O custo mensal de um cavalo de raça, o que inclui cuidados básicos, hospedagem e treinamento, é estimado entre R$ 1500 e R$ 2000.

A esta hora, Paul já deve estar de volta à Estônia. Quando conversou com a reportagem do LIBERAL, o estoniano, apaixonado pelos cavalos, já estava prestes para partir, já que a temporada no país chegava ao fim para Peintre Celebre. Ainda que timidamente, aproveitou para agradecer a hospitalidade brasileira. “Gostaria de agradecer a todos que me receberam, como o dono da fazenda, os veterinários e todo o pessoal que conheci. Foi uma ótima experiência”.

Número de estonianos no Brasil é baixo

No Brasil, a presença de estonianos é baixa. Segundo o cônsul geral honorário em São Paulo, Jüri Saukas (se pronuncia Iuri), as ondas de imigração ocorreram em duas épocas. Durante as décadas de 20 e 30, grupos de agricultores vieram ao país para aproveitar as terras ofertadas pelo governo brasileiro. Com a Europa devastada no período pós-guerra, no final da década de 40, outra leva de imigrantes desembarcou no Brasil.

Saukas estima vagamente que o número de estonianos vivendo em terras brasileiras nos dias atuais varie entre 5 e 10 mil e eles se concentram em São Paulo e no Rio de Janeiro. O dado, segundo ele, também deve incluir descendentes. “Dos que vieram há décadas, muitos foram embora para países como Estados Unidos e Canadá, por serem nações semelhantes à Estônia, principalmente, no clima”. O baixo número de imigrantes e descendentes contribui, por exemplo, para que o país seja pouco conhecido entre os brasileiros.

Localizada no norte da Europa e banhada pelo Mar Báltico, a Estônia se declarou independente da Rússia em 1918. De 1940 a 1991, existiu sob a foice e o martelo da extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Hoje, novamente livre, é uma das poucas nações da União Europeia que se gabam por não protagonizar as manchetes da crise financeira internacional, com crescimento da economia variando entre 4% e 5% ao ano. Metade da população é composta por russos, ucranianos e outras nacionalidades do leste europeu. No total, 1,3 milhão de pessoas vive num território do tamanho do estado do Espírito Santo, formado por 1500 ilhas, mil lagos e sete mil rios e riachos.

Menos trinta
No dia em que Paul conversou com a reportagem do LIBERAL, a temperatura da RPT (Região do Polo Têxtil) oscilava entre os 28 e 30°C. A sensação era bem diferente de Tallinn, capital da Estônia e cidade natal de Paul, onde o site do The Weather Channel, o “canal do tempo”, especialista em informações meteorológicas do mundo inteiro, previa termômetros marcando -2°C, sensação de -8°C e neve fraca. “Americana é uma cidade parecida com Tallinn, mas o clima aqui é bem mais agradável”, brinca o estoniano.

Entre as histórias sobre o dia a dia gélido do norte da Europa, Paul conta que as escolas e outros serviços municipais chegam a paralisar as atividades caso o frio chegue a -30°C, o que, segundo ele, ocorre uma ou duas vezes por ano. “É muito frio mesmo, mas as pessoas que nascem por lá acabam se acostumando”, diz. Tão extremo quanto os graus negativos, as horas de sol no país também são curiosas. Durante o inverno, a claridade do dia dura, em média, apenas seis horas. Em meses como dezembro e janeiro, no auge das baixas temperaturas, é comum o sol despontar às 10h e se por às 16h, por exemplo. Já no período de verão, ocorre o inverso. Entre às 4h e as 22h quase não se faz necessário acender as lâmpadas da cidade.

“Os estonianos são um povo organizado”, diz cônsul

Nos meses que conviveu com Paul, a universitária Natália Marin, 21, uma das moradoras da fazenda percebeu, entre muitas peculiaridades, a atenção especial que Paul dá aos números e aos dados. “Era comum, quando falávamos de qualquer assunto, ele pedir para quantificarmos. ‘Mas qual a porcentagem de brasileiros que vão às faculdades? Qual a população da cidade vizinha? Quantos anos dura o colegial de vocês? ’”, exemplifica.

A atração às estatísticas pode ser confirmada no site da capital estoniana, Tallinn. Lá, um cidadão atento consegue descobrir que em 2010 houve cinco assassinatos, 308 roubos, 185 acidentes de trabalho sérios, 19 acidentes de trânsito envolvendo motoristas embriagados na cidade e diversas estatísticas pontuais reunidas em mais de 100 páginas. Os números fazem parte do Statistical Yearbook of Tallinn 2011, o anuário estatístico da cidade. O cônsul geral honorário, Jüri Saukas, explica: “Certa vez me disseram na Estônia o seguinte: ‘A gente aqui fazia as idiotices soviéticas com precisão germânica. É assim que funciona. Os estonianos são um povo extremamente organizado”.

O Liberal, 29/01/2012

MP pede que Bacchim perca o cargo

O Ministério Público Estadual pediu à Justiça de Sumaré que o prefeito José Antonio Bacchim (PT) perca o cargo no Executivo e tenha os direitos políticos suspensos de oito a dez anos devido a irregularidades na contratação da Estre Empresa de Saneamento e Tratamento de Resíduos. A requisição foi feita na ação civil pública que denuncia atos de improbidade administrativa cometidos por Bacchim, informação publicada na quinta-feira, com exclusividade, pelo LIBERAL. O promotor de Justiça Fabio Vasconcellos Fortes, autor da ação, pede também que o prefeito faça o ressarcimento integral do dano e a devolução de todos os valores recebidos pela empresa por parte da Prefeitura de Sumaré, além de pagamento de multa de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial obtido pela Estre com o contrato.

O MP se baseou em exames do TCE (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), que julgou irregulares o contrato assinado em 2006, a licitação e os termos de aditamento. O valor do contrato assinado com a Estre foi de R$ 2,1 milhões. De acordo com a ação, houve direcionamento do certame à empresa e não houve pesquisa de preços com outras. O TCE apontou que exigências no edital restringiram a competitividade de outras empresas no processo licitatório. A Administração confirmou que ainda mantém contrato com a Estre.

O caso põe Bacchim em mais uma polêmica no mandato, que encerra neste ano. Após o recesso do Poder Judiciário, no início do mês, a Justiça de Sumaré condenou Bacchim à perda do cargo após julgar procedente uma ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público. De acordo com o órgão, houve a contratação de servidores em cargos comissionados com desvio de finalidade. O juiz Gilberto Vasconcelos Pereira Neto determinou também a suspensão dos direitos políticos pelo prazo de quatro anos e o pagamento de multa equivalente a 50 vezes o valor de sua remuneração atual, o que equivaleria a R$ 560 mil. Como a decisão foi julgada em primeira instância, Bacchim e a advogada que o representa, Priscila Chebel, afirmaram que vão recorrer da decisão.

Em 2010, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) cassou o mandato do prefeito de Sumaré. A alegação era de que Bacchim teria contratado um advogado sem licitação em 2008. De acordo com o MP, os administradores praticaram atos de improbidade administrativa, desobediência à Constituição e dano ao erário público, já que não havia necessidade de contratação de um serviço diferenciado dentro da prefeitura. O processo ainda corre no TJ.

O Liberal, 28/01/2012

MP entra com ação de improbidade contra Bacchim

O Ministério Público ingressou com nova ação civil pública contra o prefeito de Sumaré, José Antonio Bacchim (PT), acusando o chefe do Poder Executivo de cometer atos de improbidade administrativa devido a supostas ilegalidades na contratação da Estre Empresa de Saneamento e Tratamento de Resíduos, responsável pela execução de serviços especializados de destinação final de resíduos sólidos domiciliares e similares. O MP se baseou em exames do TCE (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo), que julgou irregular o contrato assinado em 2006, a licitação e os termos de aditamento. O valor do contrato assinado com a Estre foi de R$ 2,1 milhões. No início do mês, outra ação, também de improbidade, levou a Justiça a cassar o mandato do prefeito, que permanece no cargo até que todos os recursos possíveis sejam julgados.

De acordo com a ação, o TCE manifestou-se no ano passado pela irregularidade da licitação e da contratação dela decorrente levando em conta que as justificativas apresentadas pela Prefeitura não esclareceram as questões elencadas pela fiscalização do Tribunal em relação à ausência da pesquisa de preços praticados no mercado. Além desta alegação, o órgão apontou também que exigências no edital restringiram a competitividade de outras empresas no processo licitatório.

Segundo o processo, houve a escolha do fornecedor que culminou na assinatura de um contrato administrativo que feriu os princípios da finalidade e da igualdade, suficiente para a caracterização dos atos de improbidade administrativa. O MP afirma que a Estre foi quem mais se beneficiou com os atos ilegais praticados pela Prefeitura, inclusive auxiliando na elaboração do edital.

Procurada na tarde de ontem, a Prefeitura de Sumaré informou que ainda não foi notificada e que só se manifestará após ser comunicada oficialmente. Após a notificação, o prefeito e a empresa terão até 15 dias para se manifestar sobre o caso. A Estre foi procurada ontem por telefone e e-mail, mas não houve retorno. A Administração confirmou que ainda mantém contrato com a empresa.

CASSAÇÃO
Há duas semanas, a Justiça de Sumaré condenou Bacchim à perda do cargo público após julgar procedente outra ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público. De acordo com o MP, houve a contratação de servidores em cargos comissionados com desvio de finalidade. Além disso, o petista teve os direitos políticos suspensos pelo prazo de quatro anos e terá de pagar uma multa de R$ 560 mil, equivalente a 50 vezes o valor de sua remuneração atual. A decisão atingiu também Dalben (PPS), que comandou a Prefeitura entre os anos de 1997 e 2004. Pelo fato de caber recurso, Bacchim continua no cargo.

O Liberal, 26/01/2012

Advogados vão pedir esclarecimentos a juiz

Os advogados do ex-prefeito de Sumaré, Antonio Dirceu Dalben (PPS), e do atual, José Antonio Bacchim (PT), vão pedir que o juiz Gilberto Vasconcelos Pereira Neto esclareça pontos “obscuros” da sentença que condenou os dois políticos à perda de direitos e de mandato por irregularidade na contratação de funcionários comissionados na prefeitura. O embargo de declaração será feito entre cinco e dez dias pela defesa dos prefeitos e não tem a intenção de reverter a decisão da Justiça de Sumaré. Ontem, a condenação foi disponibilizada no Diário Oficial do Estado.

A advogada de Bacchim, Priscila Chebel, afirmou que falta clareza em alguns pontos da sentença. Na semana passada, ela alegou falta de provas na ação judicial em relação à afirmação de que parte do salário de servidores comissionados era direcionada a partidos políticos. “Por ser um processo muito extenso, alguns pontos ficam para trás. Na hora da decisão, não são apreciadas algumas coisas que para nós é importante que se tenha um posicionamento”, explicou. Priscila ressaltou, porém, que o embargo não vai afetar a decisão do magistrado. “A intenção não é alterar a sentença. Vamos apresentar os embargos, o juiz vai apreciá-lo e decidirá se presta os esclarecimentos ou não. Posteriormente faremos recurso ao Tribunal de Justiça (TJ)”.

A defesa do ex-prefeito Dalben, feita pelo advogado Marcelo Pelegrini Barbosa, informou que seguirá o mesmo caminho e vai protocolar o embargo no prazo de dez dias. Barbosa acredita que o embargo será negado, mas afirma que deverá se utilizar de todos os recursos cabíveis. A apelação ao Tribunal de Justiça só poderá ser feita 15 dias após o julgamento do embargo.

Caso
Na semana passada, a Justiça de Sumaré condenou o prefeito José Antônio Bacchim (PT) à perda do cargo público após julgar procedente uma ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público. De acordo com o órgão, houve a contratação de servidores em cargos comissionados com desvio de finalidade. Além disso, o petista teve os direitos políticos suspensos pelo prazo de quatro anos e terá de pagar uma multa de R$ 560 mil, equivalente a 50 vezes o valor de sua remuneração atual. A decisão atingiu também Dalben (PPS), que comandou a Prefeitura entre os anos de 1997 e 2004. Pelo fato de caber recurso, Bacchim continua no cargo.

O petista se defendeu relatando os ajustes feitos durante os dois mandatos na estrutura administrativa e no quadro de funcionários da Prefeitura. Ele ressaltou que houve uma diminuição drástica no número de comissionados e, por isso, teria ficado surpreso com a condenação.

O Liberal, 18/01/2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

Executivo não encontrou resistência

Câmaras de Sumaré e Hortolândia aprovaram 85% e 93%, respectivamente, do total de proposituras

Os projetos de lei elaborados pelo Poder Executivo quase não encontraram resistência para serem aprovados na Câmara dos Vereadores de Hortolândia e Sumaré em 2011. O Legislativo hortolandense é o que mais aprovou. De um total de 111 proposituras apresentadas, 104 receberam o crivo favorável dos parlamentares, o que corresponde a 93%. Em Sumaré, o índice é alguns pontos percentuais menor. No ano passado, 93 projetos, de 109, foram aprovados, o que corresponde a 85% do total.

Os dados fazem parte do balanço divulgado pelas Câmaras na semana passada. Em Sumaré, ao longo de 2011, foram apresentados, nas 42 sessões ordinárias e duas extraordinárias, 213 projetos de lei, sendo 104 pelo Poder Legislativo e 109 pelo Poder Executivo. Desse total, 157 foram aprovados e sancionados, tornando-se lei.

Em Hortolândia, foram apresentadas 4.081 proposituras. Deste total, os vereadores apresentaram 71 projetos de lei, 1.178 requerimentos, 2.640 indicações, 171 moções, 11 projetos de Decreto Legislativo e uma Proposta de Emenda a Lei Orgânica. Um dos destaques foi a aprovação do Código de Obras da cidade, que vai regulamenta as construções e reformas no município, além das nomenclaturas de ruas e avenidas, numeração de prédios, emplacamento de ruas, entre outros pontos. Até então, as regras levavam em conta a lei nº 2469/92, da Prefeitura de Sumaré, cidade a qual Hortolândia era vinculada até 1991. "Fizemos um bom trabalho em 2011, e a Câmara e os vereadores estão empenhados em melhorar ainda mais a cidade em 2012, com mais trabalhos nas ruas. Tenho certeza que vamos nos superar em 2012", comentou o presidente da Câmara, José Nazareno Gomes (PT).

O vereador Lenivaldo Pauliuki (PSDB) foi quem apresentou o maior número de requerimentos ao longo do ano passado. Já George Burlandy (PR) foi o "campeão" em relação à apresentação de projetos de lei. Por fim, Renata Belufe (PT) apresentou o maior número de indicações, tornando-se assim, os mais atuantes no Legislativo em 2011.

Sessões
As sessões da Câmara, tanto em Sumaré, como em Hortolândia, voltam a ser realizadas na primeira semana de fevereiro. Em Sumaré, o horário permanece às 19h, todas as terças. Já em Hortolândia, houve mudança. As sessões, que antes começavam a partir às 19h30, agora terão início às 14h30, também às terças.

O Liberal, 19/01/2012

O amor não se afoga

Karla Martins dos Santos, 37 anos, é viúva do mecânico Nelson Marinho Filho, de 40 anos. Na semana que o avião da Air France, voo 447, que levava seu marido para Paris caiu no mar, ela descobriu que estava grávida. Um ano depois, seu filho Caio Maximus, de 4 meses não tem o nome do pai no documento pois Nelson ainda é considerado desaparecido. A casa que Nelson construía no terreno dos pais, na zona oeste do Rio de Janeiro, ficou inacabada. (Notícia publicada no O Estado de S. Paulo, dia 30 de maio)

Um gato pulou o muro e passou correndo por entre as pernas de Karla. Sem se assustar, ela encarava, paralisada, a casa que, junto do marido, havia começado a construir. As madeiras que ajudariam a sustentar a construção da laje estavam todas empilhadas num canto do terreno. Era pra ser um sobrado, mas sequer a parte de baixo estava acabada. Além do gato, um velho cão esquálido passeava com a língua de fora, procurando por qualquer coisa que o alimentasse. Caminhava com certa melancolia, a qual Karla se identificou imediatamente. A tristeza rondava por ali.

Escolheram a zona oeste do Rio de Janeiro para realizarem o sonho de um novo lar que abrigasse os filhos que pretendiam ter. O fato de ser um sobrado foi fruto de uma boa argumentação do marido, Nelson. Karla queria mesmo uma casa que lhe poupasse o sobe e desce de escadas. Sonhava com uma sala espaçosa e uma varanda onde pudesse receber as amigas dela e os amigos dele nos animados churrascos que não tinham dia ou hora para acontecer. A casa seria grande, do tamanho das condições que tinham para bancá-la. Não podia se dizer que ganhavam mal, pois o dinheiro do trabalho, principalmente de Nelson, mecânico em uma plataforma de petróleo, ajudava a manter a construção e todos os sábados, quando o marido estava no continente, saíam para jantar num restaurante em Ipanema, próximo à avenida Vieira Souto.

Karla não saía da casa da mãe há meses, mas naquele dia, resolvera conhecer o novo shopping da cidade. Precisava comprar um presente para o irmão e queria se distrair. Porém, ao passar num cruzamento, tomou a direção contrária que a levaria para casa e rumou até a construção. Quando desceu do carro, seus olhos marejaram e só não desabou em lágrimas porque um homem a interrompera, de súbito, perguntando se gostaria de comprar panos de prato.

Deu alguns passos para o lado, olhou para a rua deserta e resolveu entrar. Imaginou como seria a vida por ali. Nelson era alegre e bem disposto em qualquer situação. Karla o imaginava bancando o mestre-cuca na cozinha espaçosa e, por vezes, sonhava que assistiria à centena de filmes que compravam só por acharem a capa interessante. Construiriam uma sala só para abrigá-los, com uma grande TV e um belo sofá-cama, que coubesse o casal e as crianças. Mas o gato voltara à cena, miando baixinho, o suficiente para Karla despertar. Percebeu que o sonho continuaria sendo sonho. Nelson se fora. É considerado desaparecido pelo fato de que o voo que o levaria a Paris ter caído no mar, num acidente que toda a imprensa acompanhou e que ainda é envolto de mistérios.

Quando entrou no carro, não conseguiu dar a partida. Chorava como uma criança. Ainda pensa no marido todos os dias, principalmente quando observa o filho, de apenas um mês, dormir no berço que Nelson se apaixonara na véspera de sua ida à França, quando passeavam pelas lojas do centro da cidade. O marido sequer sabia que Karla estava grávida, pois foi na mesma semana do acidente que ela descobriu. De dez em dez dias, Karla contava os minutos para buscar Nelson, que retornava do trabalho na plataforma e desembarcava no porto carioca. Ela sempre vai amá-lo, mesmo sabendo que nunca mais o verá voltar do mar.

Adendo ao Samba da Benção

"Quem dera Vinicius e a poesia
estarem tão vivos hoje em dia,
eu juro, eu faria uma canção.
E se Antônio fizesse-me o favor
de cantar-me um pouquinho sobre o amor
era certa a presença de João."

SBO, 1º de abril de 2011

72 rotações

Vinil e câmera das antigas formam geração de jovens analógicos

(http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/897873-vinil-e-camera-das-antigas-formam-geracao-de-jovens-analogicos.shtml) - Notícia publicada no site da Folha de S. Paulo em 04/04/2011

Querido vovô, depois de algum tempo amaldiçoando meus pais por terem se mudado para esta cidade cinzenta e amontoada que é São Paulo, vejo que as coisas não estão tão ruins assim. Hoje, fui àquela velha sebo que me indicou no aniversário de mamãe. Pra falar a verdade, o lugar é um pouco pior do que o senhor havia me contado. As ruas por lá são bem desertas e, vez por outra, é possível observar tipos estranhíssimos caminhando com caneta, bloco de anotação e óculos Wayfarer pendurados no canto da boca. Serão eles promessas literárias? Alguns até fumam incessantemente. Não importa.

Conversando com o senhorzinho que administra o local, percebi que as doações e vendas para a sebo estão decadentes. Durante o nosso papo, ele passou o tempo todo repetindo que as pessoas não têm mais preocupação com os objetos culturais. Livros, discos, CDs, revistas, são todos jogados no lixo ao invés de serem trocados por algo útil nas lojas como a dele. Não concordei nem discordei, mas disse que se dependesse de mim, ele teria uma pequena ajuda para manter o acervo. Semana passada, estive fuçando no escritório de papai e me esbarrei com uma coleção de livros infantis da década de 70. Que coisa! Hoje em dia, eles seriam bobíssimos para as crianças que nem vão a cursos de informática e já nascem com um exímio manejo de mouses, teclados, softwares e internet. Estou pensando em levar os livrinhos nesta semana.

Depois de ouvir os lamentos do senhorzinho, consegui encontrar uma edição especial de músicas do Vinicius, que traz quatro LPs e um livreto sobre canções. A capa é belíssima. Um retrato de Vinicius com o olhar perdido. O preço foi salgado, 70 reais, o que pôs fim ao dinheiro que havia ganhado no meu aniversário. Claro que meus livros da faculdade também contribuíram para essa pequena crise financeira. Papai tem me ajudado muito, mas as finanças também não andam bem lá na empresa.

Bom. É isso. Espero que as coisas estejam tranqüilas aí no interior. Os Correios já entregaram as fotos da reflex? As minhas ficaram lindas. Efeitos incríveis nas tiradas com a Lomo. Agradeça à vovó mais uma vez pela câmera. Foi um dos melhores presentes que ganhei em toda a minha existência de quase 19 anos.

Esperamos vocês aqui pro aniversário da Clarinha. A menina quase derrubou a reflex esses dias, mas estou feliz por ter pego-a de surpresa ouvindo o disco do Menescal. Agora ela passa o dia inteiro cantarolando “o barquinho vai, a tardinha cai...”. O senhor não pode perder isso! É lindo.

Um beijo de sua neta preferida.
Beijos à vovó também.
Marina.

Terço

"Feito essa gente que anda por aí,
brincando com a vida.
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer,
e não se engane não, tem uma só.
Duas mesmo que é bom,
ninguém vai me dizer que tem,
sem provar muito bem provado,
com certidão passada em cartório do céu
e assinado embaixo: Deus.
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo.
A vida é arte do encontro,
embora haja tanto desencontro pela vida.
Há sempre uma mulher à sua espera,
com os olhos cheios de carinho
e as mãos cheias de perdão.
Ponha um pouco de amor na sua vida
como no seu samba."

Trecho de Samba da Benção, de Vinicius de Moraes.
Algo pra se crer.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Arruia é só alegria

Catador de lixo, ex-vereador e viciado em café

Por trás de um carrinho de mão amontoado de papelões, numa esquina do centro da cidade de Nova Odessa, surge um homem baixo e moreno. Ele veste uma jaqueta puída, calça jeans, chinelo de dedo e um chapéu com estampas militares. Ali, ninguém se espanta ou se amedronta com os trajes e os trejeitos que ele carrega. Basta encará-lo ou dar uma simples olhadela que logo se descobre quem é. “Arruia!”, diz ele, com vontade. “Como vai? Só alegria? Quer tirar uma foto? Tudo bem, tudo bem. Vamos lá”. Erê Rodrigues, um aluno de jornalismo de Engenheiro Coelho, focaliza Arruia e dispara. “Mais uma? Vamos lá”. Clique. “Estou fazendo um ensaio fotográfico sobre pessoas que vivem na rua e descobri que este aqui é bem conhecido na cidade”, conta orgulhoso o estudante.

Em Nova Odessa, a 124 quilômetros de São Paulo, são poucos os que desconhecem Arruia. Nas ruas em que caminha empurrando seu carrinho, ele esbanja simpatia e respeito, o que acaba despertando o carisma da população por ele. Policiais militares, guardas municipais, donos de botecos, comerciantes, motoboys, frequentadores de praças e um homem que frita pastel, todos sabem quem é Arruia. “Vi ele ontem”, lembra um homem negro na praça central. “Se não me engano, dorme numa barraquinha perto da prefeitura”, diz um outro. “Não, não. Ele dorme num posto de gasolina”, explica, confiante, um morador de rua conhecido por lá como Percebejo, com bê mesmo.

Vivendo na rua há quase vinte anos e caminhando por praticamente toda a região central de Nova Odessa, as amizades acabaram surgindo e se fortalecendo. Alguns lojistas que já o conhecem não hesitam em separar as caixas de papelão e os recicláveis para ele. Se algum outro morador de rua passa pedindo, eles até dão algo, mas a maior parte fica separada.

Além dos papelões, os cafezinhos também nunca lhe são negados. Durante uma manhã congelante de maio, Arruia levanta bem cedinho para trabalhar. Na noite anterior, havia dormido num posto de gasolina próximo à rodoviária. Então, de chinelos nos pés (pois os tênis estavam sendo lavados por uma amiga), caminha sofregamente até o outro lado da rua, atravessa a pracinha e entra numa auto-escola. “Bom dia, meninas”, diz ele. “É daqui que sai o melhor café da RMC (Região Metropolitana de Campinas)”, elogia, com o característico sotaque da região, enfático na letra erre. Mas, como às vezes o melhor café também demora um pouco mais a ser preparado, a saída é caminhar uns cem metros e checar a garrafa térmica na recepção da Câmara Municipal de Vereadores. “Olá, bom dia. Como vão? Que frio, hein?”. Desprende o copinho do suporte e dá o primeiro gole da manhã. “Se deixar, bebo o dia inteiro”, confessa e beberica outro gole.

Pobre, mas feliz

Arruia nasceu Octávio Rocha em 28 de julho de 1947, na cidade de Americana, fronteiriça a Nova Odessa. Foi no bairro Carioba, um dos primeiros e mais tradicionais do município, que viveu uma infância pobre, mas feliz. O pai, Abílio Rocha, mineiro de Andradas, morreu quando ele tinha três anos de vida. A criação, portanto, foi tarefa dos avós, já que a mãe, Josefa Bernardi Rocha, esmerava-se no trabalho em uma tecelagem do bairro e quase não tinha tempo para Arruia e à irmã, dois anos mais velha.

Ao entrar na adolescência, por volta dos 12 anos, ele largou os estudos e foi trabalhar limpando carros em um posto de gasolina de Americana. Mais tarde, virou frentista e passou por vários outros serviços, numa jornada que, segundo ele, durou cerca de 25 anos. Nesse meio tempo, em 1971, casou-se com Maria da Graça Esteves, uma moradora do Jardim América, bairro americanense, e depois de cinco anos e três filhos, viu a relação chegar ao fim. “Comecei com uns problemas de alcoolismo e surgiram as desavenças. Aí, não combinava mais. Entramos em acordo e divorciamos”, explica Arruia. “Um ano depois, eu amasiei”, continua, “e também não deu certo. Mas eu tive mais três filhos”.

Quanto ao alcoolismo, Arruia é direto. “Pra ser sincero, eu sempre bebi, mas moderadamente. E teve uma época, sei lá, devido a muitos problemas, eu comecei a desandar e uma pessoa bêbada comete burradas”. Ele lembra que a bebedeira nos botecos da cidade foi responsável pela perda do comércio que tinha, um bar e mercearia “bem estocado e vendido a preço de banana”. Hoje, Arruia diz que o alcoolismo faz parte do passado. Ainda esvazia uns copos num boteco ou outro de Nova Odessa, mas nada que o faça perder a cabeça.

Quando amasiou, em 1977, Arruia foi morar no bairro Jardim das Orquídeas, no município de Santa Bárbara d’Oeste, colado a Americana. Desempregado, ele começou a catar sucatas para aumentar a renda da família e sustentar os três filhos pequenos. As andanças quilométricas que fazia pela cidade todos os dias não lhe incomodavam. Pelo contrário. “Acabei gostando. Não saía nem procurando emprego mais”, diz, com um sorriso estampado no rosto. Como não pagava aluguel, o dinheiro que ganhava vendendo sucata “dava pra viver”.

A segunda separação de Arruia veio por volta de 1992 e o fez deixar a casa, a amásia e os filhos. Ao invés de procurar outro lar, preferiu a rua.

19010

Arruia sempre foi um morador de rua diferenciado. Enquanto os mais comuns dormem sob marquises ou em lugares abandonados, isolados como se fossem a escória da sociedade, as amizades construídas nas caminhadas pela cidade o ajudaram a encontrar abrigo no Departamento de Água e Esgoto de Santa Bárbara. Localizado na região central, era lá que passava as noites, com a conivência de um vigia noturno. Para se alimentar e tomar banho, contava com os amigos do quartel do Corpo de Bombeiros, bem próximo ao DAE.

O reduto de Arruia também era perto da Câmara dos Vereadores de Santa Bárbara. Variavelmente, era lá que passava para beliscar algo ou matar a sede. “Quando tinha sessão camarária, ou mesmo quando não tinha, eu sempre ia tomar um cafezinho, um chá. Tinha até bolacha. Era bem recebido”, lembra. “Certo dia, o Sérgio Camargo (na época, presidente da Câmara e do PTB na cidade) me cercou e disse: ‘Ô Arruia, fica firme aí que eu vou te lançar a candidato a vereador, hein’”. O ano era 2004 e apesar de ser muito popular na cidade, Arruia achou que tudo não passava de uma brincadeira e acabou não levando a sério a conversa do político. Pouco tempo depois, a candidatura já estava arranjada. Primeiramente filiado ao PTB, ele disputaria a eleição sob a sigla do PTN devido à alteração do número de vereadores que seriam eleitos. Os 19 que tinham uma cadeira na Câmara passariam a ser 12 e o PTB já havia esgotado seus candidatos. Mesmo assim, no dia três de outubro daquele ano, Arruia conquistaria 1.675 votos e seria o terceiro vereador mais votado entre os 310 candidatos da cidade e o único candidato do PTN eleito no estado de São Paulo, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

As propagandas políticas que tentam entupir a cabeça das pessoas antes da eleição foram um mero detalhe durante a campanha de Arruia. No muro da casa de uma das filhas, estampou o número 19010, segundo ele, impossível de esquecer. “Meu número só não lembra quem não quer. É o 190 da polícia e o dez da camisa do Pelé”, recorda ele, ritmando as palavras. Os santinhos eram distribuídos durante as caminhadas do trabalho, mas o foco era, antes de tudo, a caça aos recicláveis. “Se tivesse um grupo de pessoas de um lado da rua e um monte de papelão no outro, eu ia primeiro pegar o papelão. Mais vale um pássaro na mão do que dez voando, não é?”, e ri do feito eleitoral. Nas escolas, as crianças já sabiam de cor outro slogan da campanha: “Não jogue seu voto pra cucuia. Vote no Arruia”.

Depois de eleito, Arruia teve de abandonar a vida nas ruas, afinal, não caía bem a um político passar as noites sobre um pedaço de papelão num prédio público da cidade. No dia seguinte à eleição, o presidente da Câmara, Sérgio Camargo, também eleito a vereador, se prontificou a ajudá-lo com as despesas de um novo lar. Contrariado, Arruia juntou o pouco que tinha e mudou-se para uma casa no centro de Santa Bárbara. Também teve de deixar de lado as sucatas que recolhia para então viver como um representante do povo.

O trabalho político durante o mandato foi regular. Nos primeiros meses, fez o papel de integrante da base aliada e não teve problemas. Mais tarde, passou a ser oposição e não poupava críticas às ações do Executivo. Ele se recorda da polêmica votação de um projeto de lei que implantava o serviço de moto-táxi na cidade. No dia da decisão, uma multidão de pessoas lotou o plenário, vigiado por vários policiais. A maioria era motoqueiro querendo a aprovação do projeto. Do outro lado, taxistas e motoristas de ônibus torciam pelo veto, temendo pelos empregos. Ao chegar a vez de Arruia votar o painel marcava um empate de cinco votos favoráveis a cinco votos contrários e como era o último da lista de votação, a ele cabia a fúria ou a euforia dos motoqueiros. “Vereador Octávio Rocha. Contrário ou favorável?”, perguntou-lhe o presidente. “Na hora, eu nem olhei pra trás. Soltei meu vozeirão e disse que era contrário. Só se ouvia gente xingando atrás de mim”. Para ele, a cidade não comportava 400 motos nas ruas estreitas do velho centro, onde encontrar uma vaga para estacionar sempre foi um exercício de paciência.

O sequestro

Em 2007, Arruia diz ter sido entrevistado por dezenas de jornalistas e programas de televisão. O motivo, que talvez pudesse ser um grande feito político, foi um sequestro sofrido por ele no dia 27 de janeiro daquele ano. À polícia, ele contou que dois supostos assaltantes o agrediram e o roubaram. As agressões teriam sido responsáveis pela perda de memória que ocasionou o sumiço por mais de duas semanas. "Esqueci que era vereador. Levei coronhadas na cabeça, acordei num lugar estranho, achava que era um andarilho", disse ao portal de notícias G1. Arruia foi encontrado em Bauru, a 325 quilômetros de São Paulo. Há quem diga que o sequestro tenha sido apenas uma desculpa para as famosas sumidas de Arruia, mas sobre o assunto, ele prefere não comentar.

Apelido

Até meados dos anos 2000, o catador de lixo que perambulava pelas ruas de Santa Bárbara tinha outro apelido. Por causa da barba por fazer, as pessoas o chamavam pela alcunha-clichê de Barba. Octávio Rocha só se tornou Arruia quando, certa vez, procurando por papelões e materiais recicláveis, ele encontrou uma espécie de dicionário libanês. Apesar da infância pobre e dos estudos até o quarto ano primário, o fato de saber ler e escrever contribuiu para que ele tivesse como hobby a leitura. Diz ele que já leu de Machado de Assis a Paulo Coelho e que os “livros instrutivos” são os preferidos, mas foi no tal dicionário libanês que encontrou o apelido marcante. Arruia, segundo constava no livro, significa “salve amigo”. “Como andava muito com o carrinho no centro da cidade e gostava de brincar com as pessoas, com aquela animação toda, eu encontrava o pessoal e gritava ‘arruia’”. No começo as pessoas achavam que fosse um xingamento, algo ruim, mas não logo simpatizaram com o significado.

Octavio Rocha, hoje em dia, é um desconhecido. Quem quiser saber dele, deve procurá-lo pelo apelido. É assim que dois garotos funcionários de um depósito de lixo o conhecem. Dirigindo uma Kombi com a lataria desgastada, eles entram no pequeno estacionamento de terra da rodoviária de Nova Odessa e encostam o mais perto possível da enorme pilha de papelões erguida por Arruia. A balança, também desgastada, é posta ao lado e a pesagem começa. Caixas, papelões avulsos, garrafas e qualquer outro tipo de material reciclável, tudo é pesado e registrado na prancheta do depósito. Para Arruia, que ajuda os garotos, significa a hora do pagamento.

Arruia se recorda que o preço do quilo do papelão em outubro de 2004, quando foi eleito, era quarenta centavos. Atualmente, os depósitos de sucata pagam dezoito. As latinhas valem mais. Antes, um quilo rendia quatro reais. Hoje, dois e noventa. O catador conta que chega a faturar oitenta reais por dia. Se trabalhados vinte dias por mês, ele teria um salário médio de 1600 reais, razoável aos padrões cotidianos para alguém que vive sozinho. No entanto, afirma que já chegou aos três mil. “Às vezes é tão vantajoso quanto trabalhar como vereador”. Para dormir, utiliza as dependências de uma loja de piso, localizada na rua XV de Novembro, um consultório de dentista na mesma rua ou a cabine da camionete do dono de um posto da cidade. Frio? “Estou com três cobertas. Não passo frio. Já cheguei até a doar para um amigo que precisava”. Fome? “Quase todo dia almoço no meu amigo Serjão, um ex-jornalista. E um restaurante às vezes me doa duas marmitas. Uma eu como no almoço. A outra eu esquento e como na janta”, explica, satisfeito. Ele diz ainda que tem uma chácara avaliada em 400 mil reais próxima à cidade de Iracemápolis, interior de São Paulo.

Com tantos aspectos a favor de uma vida “normal”, quando perguntado por que razão continua vivendo na rua, Arruia não faz mistério. Diz que, simplesmente, gosta. Que viver aos 63 anos caminhando, conhecendo e saudando pessoas lhe faz bem à saúde.

*Perfil produzido em junho de 2011, para a disciplina de Jornalismo Literário, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas.

** Arruia faleceu no dia 2 de agosto de 2011, aos 64 anos, quase dois meses após a produção do perfil.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vai levando

Se já perdemos o rumo, eu não sei, mas o ser humano sempre se mete em caminhos obscuros, numa completa falta de orientação, que o leva a cometer atos imorais, degradantes, bárbaros. É o que muitas vezes me dizem as capas dos jornais e os homens de terno das bancadas da TV. A que ponto chegamos para termos de conviver com barbáries como massacres em universidades norte-americanas, europeias e até em escolas brasileiras, estupros em série num bairro de Campinas, assassinatos banais, corrupção escancarada e outras inúmeras peripécias ilegais de vários de nossos políticos?

Talvez não nos influencie por aqui um desvio de verba pública de um prefeito no interior do Nordeste, mas, certamente, algum pai pode deixar de colocar um prato de comida para seus filhos pelo fato de o sagrado dinheiro com o qual ele conta todo mês não ter chegado a suas mãos, mas sim, ter alimentado a ganância e a ambição do alcaide que manda naquela cidade. A corrupção não afeta só os cofres de Brasília.

Há algum tempo, tive minha casa furtada por algum ladrãozinho ousado. A sensação pós-furto é só uma: revolta. Há também, um sentimento de impotência, de nada poder fazer para evitar que sejamos mais uma entre as muitas vítimas diárias. No entanto, a infelicidade me serviu para perceber algo: somente quando presenciamos e somos feridos por algum ato deste tipo é que realmente conseguimos sentir o que outras vítimas também tendem a sentir.

Esta discussão, que há muito parece batida e clichê, necessita estar sempre em pauta. Onde iremos parar se nos restringimos a uma comoção mínima, desprovida de qualquer reação ou opinião? Temos de nos questionarmos e debater sobre o que nos leva a tratar a violência de uma maneira tão banal como temos feito, o que nos faz perpetuar as farras dos homens do poder e da lei (consequências de nossos votos). Estamos cada dia mais encerrados de uma forma tão individualista em nossas vidas que muitas vezes nos esquecemos de que formamos uma sociedade, na qual o papel de todos se converge para alcançar o bom funcionamento desta.

Faltam-nos doses de empatia, conscientização e mobilização, algo em que acreditarmos e que nos seja possível. É característica marcante de nosso povo a mania de "se deixar levar". Pois isso é o que permite um país letárgico e uma sociedade alienada, talvez interessada em se resolver, mas sem os mecanismos corretos de lutar por uma nação onde somos escravos de assaltantes, estupradores e políticos aproveitadores. Mesmo com toda a lama, a gente vai levando.

O Liberal, 05/01/2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Operário morre soterrado em construção de Sumaré

Homem de 50 anos trabalhava na obra de um barracão no distrito de Nova Veneza na manhã desta quarta-feira (4)

O operário Luiz Carlos Marques Oliveira, de 50 anos, morreu soterrado, na manhã de ontem, em uma obra de um condomínio residencial na Estrada Mineko, distrito de Nova Veneza, em Sumaré. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros e do IC (Instituto de Criminalística), ele entrou em uma vala com três metros de profundidade para pegar uma ferramenta que havia caído. Ao entrar, houve um deslizamento de terra, que encobriu o operário até a altura do tórax. Ele foi socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Oliveira era morador do bairro Satélite Íris III, em Campinas, e trabalhava pelo primeiro dia na obra.

Por volta das 10h45, o Corpo de Bombeiros de Sumaré foi chamado para atender a ocorrência. O comandante Laércio Sant'ana Junior informou que o socorro chegou ao local em oito minutos. "Quando chegamos, vítima estava parcialmente soterrada, inconsciente e com a respiração fraca", explicou. Segundo ele, Oliveira teve uma parada cardiorrespiratória. Após os procedimentos médicos, o operário foi encaminhado ao CIS (Centro Integrado de Saúde) de Nova Veneza, mas acabou morrendo. A operação também contou com o apoio do Grupo de Resgate e Atendimento às Urgências (GRAU), de Campinas, e o helicóptero Águia 9, da Polícia Militar.

Durante a tarde, peritos do IC de Americana estiveram no local, onde os operários iniciavam a abertura de uma vala para tubulação de água pluvial. O perito-chefe, Edvaldo Messias de Barros, explicou que não havia escoras na vala pelo fato de os operários estarem trabalhando na parte externa. "A normatização para o serviço prevê o escoramento quando há um trabalho interno. O fato de a vítima entrar no buraco foi uma ação fortuita. Ele não estava trabalhando dentro da vala. A ação correta era não ter entrado".

O diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil e Mobiliário de Campinas, Francisco Aparecido da Silva, deu outra versão ao caso e apontou que houve negligência por parte dos trabalhadores. "Fez a vala, tem que fazer o escoramento. Disseram que o funcionário não estava trabalhando e que ele desceu para pegar uma ferramenta, mas não tinha só uma ferramenta. Havia outras. Então, tudo leva a crer que alguém estava trabalhando".

Em nota, a empresa responsável pelas obras, Log Commercial Properties, informou que Oliveira era funcionário da SGO Engenharia, uma terceirizada. Elas afirmaram que estão apurando os fatos e que vão prestar apoio à família de Oliveira.

O Liberal, 05/01/2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Suplicy vai depor em defesa de prefeito petista

De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público, a partir de janeiro de 2005, Bacchim "teria desviado rendas públicas em proveito alheio"

O senador Eduardo Suplicy (PT) será convocado para depor em defesa do prefeito de Sumaré, José Antônio Bacchim (PT), em um processo criminal que investiga possíveis desvios de verbas nos dois mandatos do chefe do Executivo sumareense. Suplicy figura no rol de testemunhas de defesa ao lado do deputado estadual Antonio Mentor, também petista, do vereador Joel Cardoso (PPL), do secretário de Governo e Participação Cidadã, Francisco de Assis Pereira de Campos, o Tito, do ex-secretário de Obras, Sebastião Chagas, e do ex-secretário de Mobilidade Urbana e Rural, Isaías Guilherme Leite. O pedido para que a convocação fosse feita é datado do dia 19 de novembro deste ano. A assessoria de imprensa do senador, no entanto, confirmou que ele ainda não foi notificado.

A advogada Priscila Chebel, responsável pela defesa de Bacchim, não respondeu sobre a razão da convocação de Suplicy para depor em favor do prefeito de Sumaré, no entanto, garantiu que a oitiva é "relacionada ao processo e à pessoa do prefeito, nada que envolva diretamente o senador".

De acordo com a denúncia oferecida pelo Ministério Público, a partir de janeiro de 2005, Bacchim "teria desviado rendas públicas em proveito alheio, através de inúmeras contratações de servidores para cargos comissionados, mediante pagamento de salários superiores aos compatíveis com as funções exercidas". Os apontamentos foram feitos em março de 2009 pelo promotor de Justiça André Medeiros do Paço. A denúncia foi acatada pelo Tribunal de Justiça do Estado.

Comissionados
Conforme apontado em 2008, em uma ação civil pública movida pelo MP, eram mais de mil cargos preenchidos de modo direto nas administrações do ex-prefeito Antônio Dirceu Dalben e de Bacchim, seu sucessor. Entre os cargos envolvidos nos supostos desvios estavam coordenador de Administração Regional, assessor técnico, assessor de coordenação de equipe e coordenador de equipe. Em relação a estes dois últimos, a apuração do MP afirma que não existe a previsão das funções, o que justificaria o desvio de finalidade.

Bacchim teria promulgado leis atualizando as remunerações, o que, para o MP, serviu para que ocorresse a contratação direta de diversas pessoas com salário superior ao compatível com as funções exercidas, resultando no desvio. No documento, são listados nove comissionados, com salários que variam de R$ 600 a R$ 3.230 e os respectivos aumentos possibilitados a partir da promulgação de leis.

Segundo o desembargador e relator do caso, Roberto Mortari, "ao menos em princípio, contratações desse tipo não seriam proveitosas para a Administração, que poderia obter melhores resultados, com menos dispêndio de dinheiro público, e sem se curvar a interesses particulares". A oitiva dos secretários, do vereador e de um comissionado está marcada para janeiro. O senador deverá ser ouvido em Brasília (DF).

O Liberal, 23/12/2011

Meus caros amigos

Aqui na terra estão lutando UFC. Tem muito funk, sertanejo e BBB. Uns dias chove, e me atrapalha ver TV. Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa continua preta. Há alguns anos tenho visto bandas e mais bandas surgirem nos palcos brasileiros, geralmente impulsionadas por um bom empresário ou por alguns canais e programas de televisão. Tudo o que elas fazem para ser um sucesso das paradas é cantar frases fáceis, que não saiam da cabeça de quem as escuta, e um ritmo não tão complexo, daqueles que qualquer aluno iniciante de violão consegue tocar. Compasso simples, uma sequência de quatro acordes, uma leve variação no refrão e, pronto.

A quem realmente aprecia a música não só como uma ótima maneira de passar o tempo ou se divertir, mas também como algo que sirva de reflexão e faça sentido, os tempos em que vivemos não são os melhores para o cenário nacional. Preza-se muito mais o cachê do que o próprio gosto pela “coisa bem feita”. Traçando um paralelo com o mundo do futebol, seria algo do tipo "falta amor à camisa".

Há três anos comemoramos o cinquentenário de um dos maiores movimentos musicais do Brasil, e também do mundo, a Bossa Nova. Um estilo que brotou no país na década de 50, apadrinhado pela extrema chatice e exigência harmônica e melódica de João Gilberto e pela exímia composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além de outros grandes nomes, que hoje só se encontram em poucas cabeças. Tudo isso, antes de um duro golpe na política e na liberdade dos brasileiros. Durante a ditadura, porém, ainda houve espaço para o surgimento do tropicalismo de Caetano e Gil e das canções de protesto de Geraldo Vandré (sem nos alongarmos em Chico), nomes devidamente eternizados na história da MPB.

Agora, se pergunte. O que temos, hoje, tocando nas rádios e que, daqui a algumas décadas, terá um cinquentenário a ser homenageado e exposto num Auditório Ibirapuera? Não temos nada. Quem serão os personagens merecedores de serem eternizados em bronze nas praias e cidades turísticas brasileiras, ao lado de quem nos postaríamos para tirar uma foto e publicaríamos nas redes sociais com uma legenda recitando algum trecho de uma canção imortalizada? “Nossa, nossa, assim você me mata” não vai substituir “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Num cenário cada vez mais comercial e ansioso por fama e prestígio, a grande música, bem trabalhada, se apequenou e deu espaço a apenas acordos e obrigações entre artistas e gravadoras, claro, visando o lucro.

"A Saúde de Sumaré não está bem", diz prefeito

Prefeito fez análise de mais um ano de governo e anunciou projetos para 2012

O prefeito de Sumaré, José Antonio Bacchim (PT), recebeu a reportagem do LIBERAL na manhã da última sexta-feira, com exclusividade, ocasião em que fez um balanço de mais um ano de governo e falou sobre os projetos que devem ser concretizados no último ano de mandato. De acordo com ele, a solução para problemas corriqueiros como a falta d'água, falta de pavimentação e de redes de esgoto avançou positivamente durante os anos que têm ocupado a principal sala do prédio localizado na Rua Dom Barreto, região central da cidade. Mesmo assim, admitiu que a situação da Saúde ainda não é boa e garantiu que a "novela" envolvendo a entrega do Pronto-socorro do Jardim Macarenko termina no primeiro semestre de 2012.

Sobre um dos problemas que mais afeta a cidade, a falta d'água, Bacchim afirmou que a situação melhorou "80%". "Sumaré ainda tem pouca capacidade de armazenamento de água. Se rompe uma adultora, cai a energia, cria-se uma crise no abastecimento. Estamos enfatizando as obras de ampliação da ETA (Estação de Tratamento de Água) 2, que estão consumindo mais de R$ 20 milhões. É algo que certamente vem dar uma tranquilidade muito grande em relação ao abastecimento de água. Estamos investindo também na ampliação da ETA 1", enumerou o prefeito.

Bacchim se revelou descontente com a Saúde no município. "Hoje, eu sei que a Saúde não está bem, mas não é só aqui. E nós investimos mais do que o dobro na área do que a lei determina. Gastamos mais na Saúde do que na Educação", garantiu ele. O atraso que se estende por mais de três anos para a entrega do Pronto-socorro do Jardim Macarenko foi justificado pelo petista devido à falta de garantia para a aquisição dos equipamentos. "Minha vontade já era ter inaugurado, mas só a vontade política às vezes não basta. Espero que dentro de 90 a 100 dias possamos fazer a entrega deste novo pronto-ssocorro, que a gente acredita que dará uma guinada na área da Saúde", afirmou.

Empresas
Sem entrar em detalhes, Bacchim revelou que, em breve, um centro de distribuição de uma multinacional conhecida deve se instalar numa área de 500 mil metros quadrados na cidade. "São 220 mil metros quadrados de galpões da área de logística, para mais de uma empresa interessada. Uma delas, eu sei que já fechou, mas não posso anunciar porque ainda não recebi o pessoal. Terá centro comercial e escritórios. Certamente, será uma grande geradora de empregos", avaliou.

O prefeito afirmou também que as obras de recapeamento das ruas da cidade devem continuar. "Tivemos de fazer uma opção no primeiro mandato e em parte do segundo, de levar o pavimento para os bairros que não tinham. Tinha dia que dessas cadeiras do gabinete eu via da janela a terra nos bairros e sabia que não tinha rede de esgoto embaixo", exemplificou.

Outro problema abordado pelo prefeito foi em relação às enchentes. No começo do ano, Sumaré sofreu prejuízos estimados em R$ 10 milhões por conta das chuvas. O Governo Federal repassou 60% dos recursos de R$ 3,1 milhões para ajudar a recuperar os danos causados. "Foram 13 obras elencadas. Destas, nove já foram executadas com o dinheiro, sobretudo pontes, recuperação de pavimento em bairros totalmente destruídos. Estamos no aguardo da liberação dos 40% restantes para outras obras."

Desafio
Para o petista, o grande desafio quando assumiu a Prefeitura, em 2005, foi reorganizar as finanças públicas. "Assumi a Prefeitura com o 13º que não haviam sido pagos e R$ 9,4 mi para pagar de um precatório relacionado a uma área de Nova Veneza. A cidade estava com o nome sujo", afirmou.

O Liberal, 03/01/2012