sexta-feira, 27 de abril de 2012
Mensalão
quinta-feira, 26 de abril de 2012
O Jardim Nova Europa
Tragédia anunciada
quinta-feira, 29 de março de 2012
Sem raça definida
O dever do jornalista com a sociedade prevê que o profissional a entenda e a traduza ao leitor, portanto, limitar-se a ouvir um e outro torna a reportagem pobre, o contexto mal definido e o fato mal transmitido. Dá margem a reações instantâneas, infundadas e, por vezes, cruéis. A cobertura in loco, ou seja, onde os fatos acontecem, geralmente traz resultados mais satisfatórios. Detalhes que poderiam dar outro viés ao assunto são muito mais perceptíveis quando se sai a campo para “farejar” a notícia.
Percebi tais efeitos em diversas reportagens sobre o ataque de um "pitbull” a cinco pessoas, em Sumaré, no dia 22 de março. No afã de ser o primeiro veículo a dar a matéria, a raça, conhecida pela ferocidade, foi cravada por praticamente todos os jornais como autora dos ataques, o que, obviamente, despertou a ira de leitores, em especial, dos mais conectados. O relato do incidente foi recheado de versões pobres e clichês e o dono do cão, massacrado verbalmente.
Responsáveis por apurar as informações do ataque, este repórter e o repórter fotográfico foram aos bairros onde as vítimas haviam sido mordidas. Por volta das 10h da manhã, o dono do cão, Antonio Cândido, baiano de Caitité, de 78 anos, morador de uma casa onde um famoso vereador petista ainda tem a candidatura a deputado estampada no muro, apareceu quase que em câmera lenta e fisicamente estafado pela idade. Quando íamos começar o papo, surge o “pitbull”.
Espantei-me com a tamanha fragilidade do cão. As costelas à mostra, as patas traseiras prestes a desabar, um olhar assustado e a melancolia do dia quebrada pela presença de estranhos. O focinho lembrava o de um pitbull, mas o animal de Cândido estava longe de representar a raça. Ainda assim, no pôr do sol anterior, o vira-lata foi mais esperto que o frágil dono e escapou quando o portão se abriu a uma amiga que vinha de visita. Ouvi, então, dos próprios atacados as diversas versões e, cruzando com a de outras testemunhas e autoridades, cheguei à conclusão que foi estampada neste jornal no dia 24 de março: um cão qualquer (e não um monstro com um dono incompetente) em um dia de fúria. Depois de tudo que li e vi, me senti com o dever cumprido.
O Liberal, 29/03/2012
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Alvoroço virtual
Recentemente, o professor Artur Vasconcellos Araújo, da PUC-Campinas, disse-me que as redes sociais se transformaram em ágoras modernas, uma remissão aos espaços de debate da Grécia dos tempos antigos, onde cidadãos se reuniam para conviver e discutir questões sociais coletivas. Ainda segundo o professor, a discussão levada aos meios virtuais de socialização (leiam-se Facebook e Twitter) se trata da acomodação a uma maneira de viver característica dos tempos atuais. A tela do computador, por mais fina que seja, é um escudo que protege o internauta e o incentiva a expressar diretamente aos governos o descontentamento com a falta de vagas em creche, o tamanho do buraco em frente à garagem, o reajustes no salário dos vereadores e outros desalinhos do cotidiano.
Acredito se tratar de uma comparação muito bem feita e de uma inovação fascinante na comunicação. A comodidade e a facilidade propiciada por esses novos meios são fatores marcantes no despertar de tal engajamento. As redes se tornam, a cada dia e com mais peso, canais oficiais de diálogo entre poder público e cidadão.
Entre um clique e outro, então, é extremamente fácil de percebera proliferação de movimentos e manifestações que surgem pelas redes. É mais fácil ainda ver a fraqueza intelectual que lhes acompanham. A democracia da internet permite a todos dizer muito, mas quase sempre, falas vazias.
Uma insurgência eficiente contra o poder público tem de se basear em apontamentos sólidos. Trata-se de organização, liderança e inteligência, algo que não se vê na maioria das manifestações originárias das redes sociais e que acabam se concretizando nas ruas ou palanques políticos. Não basta a criação de um evento, uma descrição miúda sobre o que se trata, acusações e defesas infundadas, carência de argumentação em documentos, abaixo-assinados, petições, a publicação e a confirmação dos “convidados” ao protesto. É uma perda de tempo e um entrave às atividades públicas.
Como exemplo, cito a fracassada tentativa de convencer vereadores a instaurarem uma comissão processante em Sumaré. Tentativa derrubadapor uma fundamentação muito mais sólida (e não verdadeira ou falsa) e preparada, apresentada pelo parlamentar líder da base aliada ao governo. Infelizmente, derrubada, e não pelo partidarismo, mas sim pela análise necessária a uma conduta do prefeitoinvestigada oficialmente.Portanto, se você, leitor, pretende liderar uma mobilização através das redes sociais, faça, mas a faça muito bem, e não como mero alvoroço.
50 anos da Garota
A garota mais famosa da música brasileira comemora cinco décadas. Foi em agosto de 1962 que ela se mostrou ao público, na boate fluminense Au Bon Gourmet.Como conta Ruy Castro, no livro Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, ninguém por ali, naquela noite de inverno, se dava conta do que viria quando um baiano ao violão começou. “Tom, e se você fizesse agora uma canção, que possa nos dizer, contar o que é o amor?”. E teve como resposta do maestro: “Olha, Joãozinho, eu não saberia sem Vinicius pra fazer a poesia...”. O poeta, então, entrou na conversa e sentenciou: “Para essa canção se realizar, quem dera o João para cantar...”.
Naquele momento, a “santíssima trindade” da música brasileira, composta por João Gilberto, Vinicius de Moraes e Tom Jobim, entoava as primeiras frases da mais famosa e formosa canção nacional. “Olha, que coisa mais linda, mas cheia de graça...”. Um momento que se repetiu 45 dias na boate (e nunca mais), ao lado do excelente conjunto vocal Os Cariocas e de canções emblemáticas como “Corcovado”, “Samba da minha terra”, “Insensatez”, “Samba de uma nota só” e “Se todos fossem iguais a você”.
“Garota de Ipanema” é cercada de histórias. Há quem diga que nasceu numa mesa de bar, onde Tom e Vinicius bebericavam toda a produção de uísque da Escócia e acompanhavam o balanço das curvas de Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, mais conhecida como Helô Pinheiro, à época com dezenove anos, 1,69m, olhos verdes e cabelos pretos, longos, escorridos. Alguns anos depois, os próprios autores revelaram que Helô era a musa de Ipanema, mas há quem diga que nunca foi do feitio da dupla fazer música em bares.
Ainda assim, misteriosa, nascera diferente, pelas mãos de Vinicius. A “Menina Que Passa” começava da seguinte maneira: “Vinha cansado de tudo/De tantos caminhos/Tão sem poesia/Tão sem passarinhos/Com medo da vida/Com medo de amar/Quando na tarde vazia/Tão linda no espaço/Eu vi a menina/Que vinha num passo/Cheio de balanço/Caminho do mar”.
A caminho do mar, do colégio ou do dentista, “Garota de Ipanema”, foi o início da expansão musical brasileira.Segundo dados oficiais, "Garota” rivaliza com "Yesterday", de John Lennon e Paul McCartney, na casa dos 5 milhões de execuções, e "Águas de Março", de Tom e Vinicius, foi apontada como uma das dez canções do século. Além destas, Jobim tem outras cinco ou seis canções com quase 2 milhões de execuções em escala planetária. É inegável o tamanho da repercussão internacional que teve o movimento. Muito disso, graças à menina que passa.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Vai levando
Talvez não nos influencie por aqui um desvio de verba pública de um prefeito no interior do Nordeste, mas, certamente, algum pai pode deixar de colocar um prato de comida para seus filhos pelo fato de o sagrado dinheiro com o qual ele conta todo mês não ter chegado a suas mãos, mas sim, ter alimentado a ganância e a ambição do alcaide que manda naquela cidade. A corrupção não afeta só os cofres de Brasília.
Há algum tempo, tive minha casa furtada por algum ladrãozinho ousado. A sensação pós-furto é só uma: revolta. Há também, um sentimento de impotência, de nada poder fazer para evitar que sejamos mais uma entre as muitas vítimas diárias. No entanto, a infelicidade me serviu para perceber algo: somente quando presenciamos e somos feridos por algum ato deste tipo é que realmente conseguimos sentir o que outras vítimas também tendem a sentir.
Esta discussão, que há muito parece batida e clichê, necessita estar sempre em pauta. Onde iremos parar se nos restringimos a uma comoção mínima, desprovida de qualquer reação ou opinião? Temos de nos questionarmos e debater sobre o que nos leva a tratar a violência de uma maneira tão banal como temos feito, o que nos faz perpetuar as farras dos homens do poder e da lei (consequências de nossos votos). Estamos cada dia mais encerrados de uma forma tão individualista em nossas vidas que muitas vezes nos esquecemos de que formamos uma sociedade, na qual o papel de todos se converge para alcançar o bom funcionamento desta.
Faltam-nos doses de empatia, conscientização e mobilização, algo em que acreditarmos e que nos seja possível. É característica marcante de nosso povo a mania de "se deixar levar". Pois isso é o que permite um país letárgico e uma sociedade alienada, talvez interessada em se resolver, mas sem os mecanismos corretos de lutar por uma nação onde somos escravos de assaltantes, estupradores e políticos aproveitadores. Mesmo com toda a lama, a gente vai levando.
O Liberal, 05/01/2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Meus caros amigos
A quem realmente aprecia a música não só como uma ótima maneira de passar o tempo ou se divertir, mas também como algo que sirva de reflexão e faça sentido, os tempos em que vivemos não são os melhores para o cenário nacional. Preza-se muito mais o cachê do que o próprio gosto pela “coisa bem feita”. Traçando um paralelo com o mundo do futebol, seria algo do tipo "falta amor à camisa".
Há três anos comemoramos o cinquentenário de um dos maiores movimentos musicais do Brasil, e também do mundo, a Bossa Nova. Um estilo que brotou no país na década de 50, apadrinhado pela extrema chatice e exigência harmônica e melódica de João Gilberto e pela exímia composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além de outros grandes nomes, que hoje só se encontram em poucas cabeças. Tudo isso, antes de um duro golpe na política e na liberdade dos brasileiros. Durante a ditadura, porém, ainda houve espaço para o surgimento do tropicalismo de Caetano e Gil e das canções de protesto de Geraldo Vandré (sem nos alongarmos em Chico), nomes devidamente eternizados na história da MPB.
Agora, se pergunte. O que temos, hoje, tocando nas rádios e que, daqui a algumas décadas, terá um cinquentenário a ser homenageado e exposto num Auditório Ibirapuera? Não temos nada. Quem serão os personagens merecedores de serem eternizados em bronze nas praias e cidades turísticas brasileiras, ao lado de quem nos postaríamos para tirar uma foto e publicaríamos nas redes sociais com uma legenda recitando algum trecho de uma canção imortalizada? “Nossa, nossa, assim você me mata” não vai substituir “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Num cenário cada vez mais comercial e ansioso por fama e prestígio, a grande música, bem trabalhada, se apequenou e deu espaço a apenas acordos e obrigações entre artistas e gravadoras, claro, visando o lucro.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Gente humilde
"Tem certos dias em que eu penso em minha gente", como quando, recentemente, visitei alguns bairros em Sumaré para produzir uma matéria sobre o medo das enchentes de final de ano e a falta de ações por parte das prefeituras. São bairros à beira do Ribeirão Quilombo, com infraestrutura precária e casas simplórias, construídas por gente humilde, com o pouco que tem, ou que tinham.
Por vezes, durante as entrevistas e conversas que fiz, fiquei paralisado, incapaz de fazer as perguntas que a profissão exige, pensando comigo mesmo o quanto aquelas pessoas sofrem. As casas com o forro baixo, o telhado precário, as paredes fazendo fundo com o rio e, ainda, numa delas, ironicamente, uma ferradura jaz pendurada, mostrando que não basta para trazer sorte a quem mora ali e tem de almoçar com o cheiro forte do lixo e do esgoto que invade as narinas de qualquer um. A situação é crítca, mas a recepção em uma das casas é calorosa, como se a reportagem fosse a salvadora de todos os males. "Vocês vieram na hora certa", comemora uma moradora do Jardim Basilicata.
As pessoas com quem me encontrei falavam da vida, reclamavam do descaso das prefeituras, contavam as angústias e o sofrimento constante de, hora ou outra, por conta de uma forte chuva, ter de recomeçar a viver. Pareceu-me banal a elas conviver com a perda dos objetos pessoais, mas pude perceber a tristeza e até as lágrimas quando comentam os estragos, os móveis perdidos e, principalmente, a morte de familiares ou amigos.
Sinceramente, em situações como as que vi, não acredito que elas vivam. Seria algo muito mais próximo à sobrevivência. São vidas que se esforçam para sonhar com um futuro melhor, que, infelizmente, passa pelas mãos de governos desinteressados ou incapazes de planejar soluções para os problemas sociais.
E, então, nos dias que seguem, surge uma matéria sobre maus tratos e descaso no atendimento a um idoso em um posto de saúde municipal, outra sobre investigações de fraudes em sorteio de moradias a pessoas que sobrevivem à beira do Quilombo, apuração de contratos superfaturados, gastos desnecessários, propinas e outras coisas. Tudo isso, repetidas vezes, é capaz de desanimar qualquer um a crer num futuro de igualdade social.
As aspas que abrem este texto também abrem uma canção composta por Chico Buarque e Vinicius de Moraes, homônima ao título desta postagem. Nada mais justo do que terminar com o final da composição. "E eu, que não creio, peço a Deus por minha gente. É gente humilde. Que vontade de chorar!".
Artigo publicado no jornal O Liberal, de Americana, hoje, 03/11/11.
Abaixo, a canção e a letra.
"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"