terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vai levando

Se já perdemos o rumo, eu não sei, mas o ser humano sempre se mete em caminhos obscuros, numa completa falta de orientação, que o leva a cometer atos imorais, degradantes, bárbaros. É o que muitas vezes me dizem as capas dos jornais e os homens de terno das bancadas da TV. A que ponto chegamos para termos de conviver com barbáries como massacres em universidades norte-americanas, europeias e até em escolas brasileiras, estupros em série num bairro de Campinas, assassinatos banais, corrupção escancarada e outras inúmeras peripécias ilegais de vários de nossos políticos?

Talvez não nos influencie por aqui um desvio de verba pública de um prefeito no interior do Nordeste, mas, certamente, algum pai pode deixar de colocar um prato de comida para seus filhos pelo fato de o sagrado dinheiro com o qual ele conta todo mês não ter chegado a suas mãos, mas sim, ter alimentado a ganância e a ambição do alcaide que manda naquela cidade. A corrupção não afeta só os cofres de Brasília.

Há algum tempo, tive minha casa furtada por algum ladrãozinho ousado. A sensação pós-furto é só uma: revolta. Há também, um sentimento de impotência, de nada poder fazer para evitar que sejamos mais uma entre as muitas vítimas diárias. No entanto, a infelicidade me serviu para perceber algo: somente quando presenciamos e somos feridos por algum ato deste tipo é que realmente conseguimos sentir o que outras vítimas também tendem a sentir.

Esta discussão, que há muito parece batida e clichê, necessita estar sempre em pauta. Onde iremos parar se nos restringimos a uma comoção mínima, desprovida de qualquer reação ou opinião? Temos de nos questionarmos e debater sobre o que nos leva a tratar a violência de uma maneira tão banal como temos feito, o que nos faz perpetuar as farras dos homens do poder e da lei (consequências de nossos votos). Estamos cada dia mais encerrados de uma forma tão individualista em nossas vidas que muitas vezes nos esquecemos de que formamos uma sociedade, na qual o papel de todos se converge para alcançar o bom funcionamento desta.

Faltam-nos doses de empatia, conscientização e mobilização, algo em que acreditarmos e que nos seja possível. É característica marcante de nosso povo a mania de "se deixar levar". Pois isso é o que permite um país letárgico e uma sociedade alienada, talvez interessada em se resolver, mas sem os mecanismos corretos de lutar por uma nação onde somos escravos de assaltantes, estupradores e políticos aproveitadores. Mesmo com toda a lama, a gente vai levando.

O Liberal, 05/01/2012

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