A quem realmente aprecia a música não só como uma ótima maneira de passar o tempo ou se divertir, mas também como algo que sirva de reflexão e faça sentido, os tempos em que vivemos não são os melhores para o cenário nacional. Preza-se muito mais o cachê do que o próprio gosto pela “coisa bem feita”. Traçando um paralelo com o mundo do futebol, seria algo do tipo "falta amor à camisa".
Há três anos comemoramos o cinquentenário de um dos maiores movimentos musicais do Brasil, e também do mundo, a Bossa Nova. Um estilo que brotou no país na década de 50, apadrinhado pela extrema chatice e exigência harmônica e melódica de João Gilberto e pela exímia composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além de outros grandes nomes, que hoje só se encontram em poucas cabeças. Tudo isso, antes de um duro golpe na política e na liberdade dos brasileiros. Durante a ditadura, porém, ainda houve espaço para o surgimento do tropicalismo de Caetano e Gil e das canções de protesto de Geraldo Vandré (sem nos alongarmos em Chico), nomes devidamente eternizados na história da MPB.
Agora, se pergunte. O que temos, hoje, tocando nas rádios e que, daqui a algumas décadas, terá um cinquentenário a ser homenageado e exposto num Auditório Ibirapuera? Não temos nada. Quem serão os personagens merecedores de serem eternizados em bronze nas praias e cidades turísticas brasileiras, ao lado de quem nos postaríamos para tirar uma foto e publicaríamos nas redes sociais com uma legenda recitando algum trecho de uma canção imortalizada? “Nossa, nossa, assim você me mata” não vai substituir “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Num cenário cada vez mais comercial e ansioso por fama e prestígio, a grande música, bem trabalhada, se apequenou e deu espaço a apenas acordos e obrigações entre artistas e gravadoras, claro, visando o lucro.
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