quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Meus caros amigos

Aqui na terra estão lutando UFC. Tem muito funk, sertanejo e BBB. Uns dias chove, e me atrapalha ver TV. Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa continua preta. Há alguns anos tenho visto bandas e mais bandas surgirem nos palcos brasileiros, geralmente impulsionadas por um bom empresário ou por alguns canais e programas de televisão. Tudo o que elas fazem para ser um sucesso das paradas é cantar frases fáceis, que não saiam da cabeça de quem as escuta, e um ritmo não tão complexo, daqueles que qualquer aluno iniciante de violão consegue tocar. Compasso simples, uma sequência de quatro acordes, uma leve variação no refrão e, pronto.

A quem realmente aprecia a música não só como uma ótima maneira de passar o tempo ou se divertir, mas também como algo que sirva de reflexão e faça sentido, os tempos em que vivemos não são os melhores para o cenário nacional. Preza-se muito mais o cachê do que o próprio gosto pela “coisa bem feita”. Traçando um paralelo com o mundo do futebol, seria algo do tipo "falta amor à camisa".

Há três anos comemoramos o cinquentenário de um dos maiores movimentos musicais do Brasil, e também do mundo, a Bossa Nova. Um estilo que brotou no país na década de 50, apadrinhado pela extrema chatice e exigência harmônica e melódica de João Gilberto e pela exímia composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além de outros grandes nomes, que hoje só se encontram em poucas cabeças. Tudo isso, antes de um duro golpe na política e na liberdade dos brasileiros. Durante a ditadura, porém, ainda houve espaço para o surgimento do tropicalismo de Caetano e Gil e das canções de protesto de Geraldo Vandré (sem nos alongarmos em Chico), nomes devidamente eternizados na história da MPB.

Agora, se pergunte. O que temos, hoje, tocando nas rádios e que, daqui a algumas décadas, terá um cinquentenário a ser homenageado e exposto num Auditório Ibirapuera? Não temos nada. Quem serão os personagens merecedores de serem eternizados em bronze nas praias e cidades turísticas brasileiras, ao lado de quem nos postaríamos para tirar uma foto e publicaríamos nas redes sociais com uma legenda recitando algum trecho de uma canção imortalizada? “Nossa, nossa, assim você me mata” não vai substituir “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Num cenário cada vez mais comercial e ansioso por fama e prestígio, a grande música, bem trabalhada, se apequenou e deu espaço a apenas acordos e obrigações entre artistas e gravadoras, claro, visando o lucro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário