Babá de cavalo. É o que melhor definiria o trabalho de Paul Turu, o estoniano de 28 anos que num final de tarde deste mês escovava com esmero os pelos castanhos de Peintre Celebre, o famoso garanhão europeu, campeão das pistas do turfe francês, que, aos 18 anos de idade, veio a Americana para prestar “serviços de reprodução” às éguas de um empresário dos ramos têxtil e siderúrgico. Dentro do estábulo, o cavalo parecia à vontade, ainda que os trovões que soavam do lado de fora o deixavam curioso. De onde Peintre Celebre veio, a Irlanda, sons do tipo são raros. “Fico imaginando o que ele deve estar pensando com todo esse barulho lá fora”, questiona-se Paul, num inglês carregado por um sotaque próximo ao alemão.
Desde os 20 anos, quando saiu da Estônia, Paul tem a missão de acompanhar cavalos que são conhecidos pela qualidade reprodutora. Ele já passou por Inglaterra, Irlanda, Argentina, Austrália, Nova Zelândia e França, sempre seguindo os animais. Os países para onde viajam, porém, não são escolhidos aleatoriamente. Além da necessidade de quem contrata os “serviços” dos garanhões, a chegada a um novo local depende também da estação do ano. A temporada de reprodução no Brasil, por exemplo, vai de agosto a janeiro, quando as temperaturas marcam índices amenos.
Paul e Peintre Celebre desembarcaram em Americana em agosto do ano passado. A rotina da dupla começa bem cedo. Por volta das 6h30, ele leva o garanhão para uma caminhada, o que chama de “aquecimento”, e aproveita para deixá-lo se alimentar do pasto da fazenda. Pela tarde, o cavalo passa por uma higienização, faz as necessidades fisiológicas e se prepara para a reprodução com as éguas da fazenda. Apesar de não revelar cifras nem resultados, considerados confidenciais, Paul garante que Peintre Celebre tem feito um bom serviço e elogia o animal. “É um cavalo fácil de lidar e muito bem comportado”. Talvez por isso seja um dos garanhões mais viajados do mundo. “Ele já esteve em mais países do que eu, como no Japão”, conta.
O objetivo de estar ao lado do garanhão, explica Paul, é tentar manter a rotina e o ambiente do animal em qualquer lugar do planeta. Mas este acompanhamento pessoal dos cavalos não é comum. Geralmente, os próprios funcionários das fazendas que recebem os animais acabam prestando os cuidados necessários. O estoniano revela, porém, que se trata de uma opção da Coolmore Stud, a empresa irlandesa que ele representa. “É diferente quando você tem que cuidar de vinte cavalos e de um. Acreditamos que seja melhor desta maneira”.
A Coolmore é uma das maiores empresas do mundo que lidam com o chamado horse breeding, a reprodução de cavalos dirigida e seletiva. A intenção de quem procura pelos garanhões de empresas como ela é a tentativa de, com o acasalamento planejado, conseguir filhotes com características específicas. Além disso, este tipo de reprodução conta muitas vezes com tecnologias para aumentar a taxa de concepção e proporcionar uma gravidez saudável e um parto bem sucedido aos animais.
Segundo dados da CNA, a Confederação da Agricultura e Pecuária, o setor de criação de cavalos de raça e atividades relacionadas movimentam R$ 7,5 bilhões anualmente no país. No entanto, investir em garanhões ainda é privilégio de poucos endinheirados. O custo mensal de um cavalo de raça, o que inclui cuidados básicos, hospedagem e treinamento, é estimado entre R$ 1500 e R$ 2000.
A esta hora, Paul já deve estar de volta à Estônia. Quando conversou com a reportagem do LIBERAL, o estoniano, apaixonado pelos cavalos, já estava prestes para partir, já que a temporada no país chegava ao fim para Peintre Celebre. Ainda que timidamente, aproveitou para agradecer a hospitalidade brasileira. “Gostaria de agradecer a todos que me receberam, como o dono da fazenda, os veterinários e todo o pessoal que conheci. Foi uma ótima experiência”.
Número de estonianos no Brasil é baixo
No Brasil, a presença de estonianos é baixa. Segundo o cônsul geral honorário em São Paulo, Jüri Saukas (se pronuncia Iuri), as ondas de imigração ocorreram em duas épocas. Durante as décadas de 20 e 30, grupos de agricultores vieram ao país para aproveitar as terras ofertadas pelo governo brasileiro. Com a Europa devastada no período pós-guerra, no final da década de 40, outra leva de imigrantes desembarcou no Brasil.
Saukas estima vagamente que o número de estonianos vivendo em terras brasileiras nos dias atuais varie entre 5 e 10 mil e eles se concentram em São Paulo e no Rio de Janeiro. O dado, segundo ele, também deve incluir descendentes. “Dos que vieram há décadas, muitos foram embora para países como Estados Unidos e Canadá, por serem nações semelhantes à Estônia, principalmente, no clima”. O baixo número de imigrantes e descendentes contribui, por exemplo, para que o país seja pouco conhecido entre os brasileiros.
Localizada no norte da Europa e banhada pelo Mar Báltico, a Estônia se declarou independente da Rússia em 1918. De 1940 a 1991, existiu sob a foice e o martelo da extinta URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Hoje, novamente livre, é uma das poucas nações da União Europeia que se gabam por não protagonizar as manchetes da crise financeira internacional, com crescimento da economia variando entre 4% e 5% ao ano. Metade da população é composta por russos, ucranianos e outras nacionalidades do leste europeu. No total, 1,3 milhão de pessoas vive num território do tamanho do estado do Espírito Santo, formado por 1500 ilhas, mil lagos e sete mil rios e riachos.
Menos trinta
No dia em que Paul conversou com a reportagem do LIBERAL, a temperatura da RPT (Região do Polo Têxtil) oscilava entre os 28 e 30°C. A sensação era bem diferente de Tallinn, capital da Estônia e cidade natal de Paul, onde o site do The Weather Channel, o “canal do tempo”, especialista em informações meteorológicas do mundo inteiro, previa termômetros marcando -2°C, sensação de -8°C e neve fraca. “Americana é uma cidade parecida com Tallinn, mas o clima aqui é bem mais agradável”, brinca o estoniano.
Entre as histórias sobre o dia a dia gélido do norte da Europa, Paul conta que as escolas e outros serviços municipais chegam a paralisar as atividades caso o frio chegue a -30°C, o que, segundo ele, ocorre uma ou duas vezes por ano. “É muito frio mesmo, mas as pessoas que nascem por lá acabam se acostumando”, diz. Tão extremo quanto os graus negativos, as horas de sol no país também são curiosas. Durante o inverno, a claridade do dia dura, em média, apenas seis horas. Em meses como dezembro e janeiro, no auge das baixas temperaturas, é comum o sol despontar às 10h e se por às 16h, por exemplo. Já no período de verão, ocorre o inverso. Entre às 4h e as 22h quase não se faz necessário acender as lâmpadas da cidade.
“Os estonianos são um povo organizado”, diz cônsul
Nos meses que conviveu com Paul, a universitária Natália Marin, 21, uma das moradoras da fazenda percebeu, entre muitas peculiaridades, a atenção especial que Paul dá aos números e aos dados. “Era comum, quando falávamos de qualquer assunto, ele pedir para quantificarmos. ‘Mas qual a porcentagem de brasileiros que vão às faculdades? Qual a população da cidade vizinha? Quantos anos dura o colegial de vocês? ’”, exemplifica.
A atração às estatísticas pode ser confirmada no site da capital estoniana, Tallinn. Lá, um cidadão atento consegue descobrir que em 2010 houve cinco assassinatos, 308 roubos, 185 acidentes de trabalho sérios, 19 acidentes de trânsito envolvendo motoristas embriagados na cidade e diversas estatísticas pontuais reunidas em mais de 100 páginas. Os números fazem parte do Statistical Yearbook of Tallinn 2011, o anuário estatístico da cidade. O cônsul geral honorário, Jüri Saukas, explica: “Certa vez me disseram na Estônia o seguinte: ‘A gente aqui fazia as idiotices soviéticas com precisão germânica. É assim que funciona. Os estonianos são um povo extremamente organizado”.
O Liberal, 29/01/2012
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