domingo, 15 de janeiro de 2012

Arruia é só alegria

Catador de lixo, ex-vereador e viciado em café

Por trás de um carrinho de mão amontoado de papelões, numa esquina do centro da cidade de Nova Odessa, surge um homem baixo e moreno. Ele veste uma jaqueta puída, calça jeans, chinelo de dedo e um chapéu com estampas militares. Ali, ninguém se espanta ou se amedronta com os trajes e os trejeitos que ele carrega. Basta encará-lo ou dar uma simples olhadela que logo se descobre quem é. “Arruia!”, diz ele, com vontade. “Como vai? Só alegria? Quer tirar uma foto? Tudo bem, tudo bem. Vamos lá”. Erê Rodrigues, um aluno de jornalismo de Engenheiro Coelho, focaliza Arruia e dispara. “Mais uma? Vamos lá”. Clique. “Estou fazendo um ensaio fotográfico sobre pessoas que vivem na rua e descobri que este aqui é bem conhecido na cidade”, conta orgulhoso o estudante.

Em Nova Odessa, a 124 quilômetros de São Paulo, são poucos os que desconhecem Arruia. Nas ruas em que caminha empurrando seu carrinho, ele esbanja simpatia e respeito, o que acaba despertando o carisma da população por ele. Policiais militares, guardas municipais, donos de botecos, comerciantes, motoboys, frequentadores de praças e um homem que frita pastel, todos sabem quem é Arruia. “Vi ele ontem”, lembra um homem negro na praça central. “Se não me engano, dorme numa barraquinha perto da prefeitura”, diz um outro. “Não, não. Ele dorme num posto de gasolina”, explica, confiante, um morador de rua conhecido por lá como Percebejo, com bê mesmo.

Vivendo na rua há quase vinte anos e caminhando por praticamente toda a região central de Nova Odessa, as amizades acabaram surgindo e se fortalecendo. Alguns lojistas que já o conhecem não hesitam em separar as caixas de papelão e os recicláveis para ele. Se algum outro morador de rua passa pedindo, eles até dão algo, mas a maior parte fica separada.

Além dos papelões, os cafezinhos também nunca lhe são negados. Durante uma manhã congelante de maio, Arruia levanta bem cedinho para trabalhar. Na noite anterior, havia dormido num posto de gasolina próximo à rodoviária. Então, de chinelos nos pés (pois os tênis estavam sendo lavados por uma amiga), caminha sofregamente até o outro lado da rua, atravessa a pracinha e entra numa auto-escola. “Bom dia, meninas”, diz ele. “É daqui que sai o melhor café da RMC (Região Metropolitana de Campinas)”, elogia, com o característico sotaque da região, enfático na letra erre. Mas, como às vezes o melhor café também demora um pouco mais a ser preparado, a saída é caminhar uns cem metros e checar a garrafa térmica na recepção da Câmara Municipal de Vereadores. “Olá, bom dia. Como vão? Que frio, hein?”. Desprende o copinho do suporte e dá o primeiro gole da manhã. “Se deixar, bebo o dia inteiro”, confessa e beberica outro gole.

Pobre, mas feliz

Arruia nasceu Octávio Rocha em 28 de julho de 1947, na cidade de Americana, fronteiriça a Nova Odessa. Foi no bairro Carioba, um dos primeiros e mais tradicionais do município, que viveu uma infância pobre, mas feliz. O pai, Abílio Rocha, mineiro de Andradas, morreu quando ele tinha três anos de vida. A criação, portanto, foi tarefa dos avós, já que a mãe, Josefa Bernardi Rocha, esmerava-se no trabalho em uma tecelagem do bairro e quase não tinha tempo para Arruia e à irmã, dois anos mais velha.

Ao entrar na adolescência, por volta dos 12 anos, ele largou os estudos e foi trabalhar limpando carros em um posto de gasolina de Americana. Mais tarde, virou frentista e passou por vários outros serviços, numa jornada que, segundo ele, durou cerca de 25 anos. Nesse meio tempo, em 1971, casou-se com Maria da Graça Esteves, uma moradora do Jardim América, bairro americanense, e depois de cinco anos e três filhos, viu a relação chegar ao fim. “Comecei com uns problemas de alcoolismo e surgiram as desavenças. Aí, não combinava mais. Entramos em acordo e divorciamos”, explica Arruia. “Um ano depois, eu amasiei”, continua, “e também não deu certo. Mas eu tive mais três filhos”.

Quanto ao alcoolismo, Arruia é direto. “Pra ser sincero, eu sempre bebi, mas moderadamente. E teve uma época, sei lá, devido a muitos problemas, eu comecei a desandar e uma pessoa bêbada comete burradas”. Ele lembra que a bebedeira nos botecos da cidade foi responsável pela perda do comércio que tinha, um bar e mercearia “bem estocado e vendido a preço de banana”. Hoje, Arruia diz que o alcoolismo faz parte do passado. Ainda esvazia uns copos num boteco ou outro de Nova Odessa, mas nada que o faça perder a cabeça.

Quando amasiou, em 1977, Arruia foi morar no bairro Jardim das Orquídeas, no município de Santa Bárbara d’Oeste, colado a Americana. Desempregado, ele começou a catar sucatas para aumentar a renda da família e sustentar os três filhos pequenos. As andanças quilométricas que fazia pela cidade todos os dias não lhe incomodavam. Pelo contrário. “Acabei gostando. Não saía nem procurando emprego mais”, diz, com um sorriso estampado no rosto. Como não pagava aluguel, o dinheiro que ganhava vendendo sucata “dava pra viver”.

A segunda separação de Arruia veio por volta de 1992 e o fez deixar a casa, a amásia e os filhos. Ao invés de procurar outro lar, preferiu a rua.

19010

Arruia sempre foi um morador de rua diferenciado. Enquanto os mais comuns dormem sob marquises ou em lugares abandonados, isolados como se fossem a escória da sociedade, as amizades construídas nas caminhadas pela cidade o ajudaram a encontrar abrigo no Departamento de Água e Esgoto de Santa Bárbara. Localizado na região central, era lá que passava as noites, com a conivência de um vigia noturno. Para se alimentar e tomar banho, contava com os amigos do quartel do Corpo de Bombeiros, bem próximo ao DAE.

O reduto de Arruia também era perto da Câmara dos Vereadores de Santa Bárbara. Variavelmente, era lá que passava para beliscar algo ou matar a sede. “Quando tinha sessão camarária, ou mesmo quando não tinha, eu sempre ia tomar um cafezinho, um chá. Tinha até bolacha. Era bem recebido”, lembra. “Certo dia, o Sérgio Camargo (na época, presidente da Câmara e do PTB na cidade) me cercou e disse: ‘Ô Arruia, fica firme aí que eu vou te lançar a candidato a vereador, hein’”. O ano era 2004 e apesar de ser muito popular na cidade, Arruia achou que tudo não passava de uma brincadeira e acabou não levando a sério a conversa do político. Pouco tempo depois, a candidatura já estava arranjada. Primeiramente filiado ao PTB, ele disputaria a eleição sob a sigla do PTN devido à alteração do número de vereadores que seriam eleitos. Os 19 que tinham uma cadeira na Câmara passariam a ser 12 e o PTB já havia esgotado seus candidatos. Mesmo assim, no dia três de outubro daquele ano, Arruia conquistaria 1.675 votos e seria o terceiro vereador mais votado entre os 310 candidatos da cidade e o único candidato do PTN eleito no estado de São Paulo, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

As propagandas políticas que tentam entupir a cabeça das pessoas antes da eleição foram um mero detalhe durante a campanha de Arruia. No muro da casa de uma das filhas, estampou o número 19010, segundo ele, impossível de esquecer. “Meu número só não lembra quem não quer. É o 190 da polícia e o dez da camisa do Pelé”, recorda ele, ritmando as palavras. Os santinhos eram distribuídos durante as caminhadas do trabalho, mas o foco era, antes de tudo, a caça aos recicláveis. “Se tivesse um grupo de pessoas de um lado da rua e um monte de papelão no outro, eu ia primeiro pegar o papelão. Mais vale um pássaro na mão do que dez voando, não é?”, e ri do feito eleitoral. Nas escolas, as crianças já sabiam de cor outro slogan da campanha: “Não jogue seu voto pra cucuia. Vote no Arruia”.

Depois de eleito, Arruia teve de abandonar a vida nas ruas, afinal, não caía bem a um político passar as noites sobre um pedaço de papelão num prédio público da cidade. No dia seguinte à eleição, o presidente da Câmara, Sérgio Camargo, também eleito a vereador, se prontificou a ajudá-lo com as despesas de um novo lar. Contrariado, Arruia juntou o pouco que tinha e mudou-se para uma casa no centro de Santa Bárbara. Também teve de deixar de lado as sucatas que recolhia para então viver como um representante do povo.

O trabalho político durante o mandato foi regular. Nos primeiros meses, fez o papel de integrante da base aliada e não teve problemas. Mais tarde, passou a ser oposição e não poupava críticas às ações do Executivo. Ele se recorda da polêmica votação de um projeto de lei que implantava o serviço de moto-táxi na cidade. No dia da decisão, uma multidão de pessoas lotou o plenário, vigiado por vários policiais. A maioria era motoqueiro querendo a aprovação do projeto. Do outro lado, taxistas e motoristas de ônibus torciam pelo veto, temendo pelos empregos. Ao chegar a vez de Arruia votar o painel marcava um empate de cinco votos favoráveis a cinco votos contrários e como era o último da lista de votação, a ele cabia a fúria ou a euforia dos motoqueiros. “Vereador Octávio Rocha. Contrário ou favorável?”, perguntou-lhe o presidente. “Na hora, eu nem olhei pra trás. Soltei meu vozeirão e disse que era contrário. Só se ouvia gente xingando atrás de mim”. Para ele, a cidade não comportava 400 motos nas ruas estreitas do velho centro, onde encontrar uma vaga para estacionar sempre foi um exercício de paciência.

O sequestro

Em 2007, Arruia diz ter sido entrevistado por dezenas de jornalistas e programas de televisão. O motivo, que talvez pudesse ser um grande feito político, foi um sequestro sofrido por ele no dia 27 de janeiro daquele ano. À polícia, ele contou que dois supostos assaltantes o agrediram e o roubaram. As agressões teriam sido responsáveis pela perda de memória que ocasionou o sumiço por mais de duas semanas. "Esqueci que era vereador. Levei coronhadas na cabeça, acordei num lugar estranho, achava que era um andarilho", disse ao portal de notícias G1. Arruia foi encontrado em Bauru, a 325 quilômetros de São Paulo. Há quem diga que o sequestro tenha sido apenas uma desculpa para as famosas sumidas de Arruia, mas sobre o assunto, ele prefere não comentar.

Apelido

Até meados dos anos 2000, o catador de lixo que perambulava pelas ruas de Santa Bárbara tinha outro apelido. Por causa da barba por fazer, as pessoas o chamavam pela alcunha-clichê de Barba. Octávio Rocha só se tornou Arruia quando, certa vez, procurando por papelões e materiais recicláveis, ele encontrou uma espécie de dicionário libanês. Apesar da infância pobre e dos estudos até o quarto ano primário, o fato de saber ler e escrever contribuiu para que ele tivesse como hobby a leitura. Diz ele que já leu de Machado de Assis a Paulo Coelho e que os “livros instrutivos” são os preferidos, mas foi no tal dicionário libanês que encontrou o apelido marcante. Arruia, segundo constava no livro, significa “salve amigo”. “Como andava muito com o carrinho no centro da cidade e gostava de brincar com as pessoas, com aquela animação toda, eu encontrava o pessoal e gritava ‘arruia’”. No começo as pessoas achavam que fosse um xingamento, algo ruim, mas não logo simpatizaram com o significado.

Octavio Rocha, hoje em dia, é um desconhecido. Quem quiser saber dele, deve procurá-lo pelo apelido. É assim que dois garotos funcionários de um depósito de lixo o conhecem. Dirigindo uma Kombi com a lataria desgastada, eles entram no pequeno estacionamento de terra da rodoviária de Nova Odessa e encostam o mais perto possível da enorme pilha de papelões erguida por Arruia. A balança, também desgastada, é posta ao lado e a pesagem começa. Caixas, papelões avulsos, garrafas e qualquer outro tipo de material reciclável, tudo é pesado e registrado na prancheta do depósito. Para Arruia, que ajuda os garotos, significa a hora do pagamento.

Arruia se recorda que o preço do quilo do papelão em outubro de 2004, quando foi eleito, era quarenta centavos. Atualmente, os depósitos de sucata pagam dezoito. As latinhas valem mais. Antes, um quilo rendia quatro reais. Hoje, dois e noventa. O catador conta que chega a faturar oitenta reais por dia. Se trabalhados vinte dias por mês, ele teria um salário médio de 1600 reais, razoável aos padrões cotidianos para alguém que vive sozinho. No entanto, afirma que já chegou aos três mil. “Às vezes é tão vantajoso quanto trabalhar como vereador”. Para dormir, utiliza as dependências de uma loja de piso, localizada na rua XV de Novembro, um consultório de dentista na mesma rua ou a cabine da camionete do dono de um posto da cidade. Frio? “Estou com três cobertas. Não passo frio. Já cheguei até a doar para um amigo que precisava”. Fome? “Quase todo dia almoço no meu amigo Serjão, um ex-jornalista. E um restaurante às vezes me doa duas marmitas. Uma eu como no almoço. A outra eu esquento e como na janta”, explica, satisfeito. Ele diz ainda que tem uma chácara avaliada em 400 mil reais próxima à cidade de Iracemápolis, interior de São Paulo.

Com tantos aspectos a favor de uma vida “normal”, quando perguntado por que razão continua vivendo na rua, Arruia não faz mistério. Diz que, simplesmente, gosta. Que viver aos 63 anos caminhando, conhecendo e saudando pessoas lhe faz bem à saúde.

*Perfil produzido em junho de 2011, para a disciplina de Jornalismo Literário, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas.

** Arruia faleceu no dia 2 de agosto de 2011, aos 64 anos, quase dois meses após a produção do perfil.

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