quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Gente humilde

Artigo publicado no jornal O Liberal, de Americana, hoje, 03/11/11.

"Tem certos dias em que eu penso em minha gente", como quando, recentemente, visitei alguns bairros em Sumaré para produzir uma matéria sobre o medo das enchentes de final de ano e a falta de ações por parte das prefeituras. São bairros à beira do Ribeirão Quilombo, com infraestrutura precária e casas simplórias, construídas por gente humilde, com o pouco que tem, ou que tinham.

Por vezes, durante as entrevistas e conversas que fiz, fiquei paralisado, incapaz de fazer as perguntas que a profissão exige, pensando comigo mesmo o quanto aquelas pessoas sofrem. As casas com o forro baixo, o telhado precário, as paredes fazendo fundo com o rio e, ainda, numa delas, ironicamente, uma ferradura jaz pendurada, mostrando que não basta para trazer sorte a quem mora ali e tem de almoçar com o cheiro forte do lixo e do esgoto que invade as narinas de qualquer um. A situação é crítca, mas a recepção em uma das casas é calorosa, como se a reportagem fosse a salvadora de todos os males. "Vocês vieram na hora certa", comemora uma moradora do Jardim Basilicata.

As pessoas com quem me encontrei falavam da vida, reclamavam do descaso das prefeituras, contavam as angústias e o sofrimento constante de, hora ou outra, por conta de uma forte chuva, ter de recomeçar a viver. Pareceu-me banal a elas conviver com a perda dos objetos pessoais, mas pude perceber a tristeza e até as lágrimas quando comentam os estragos, os móveis perdidos e, principalmente, a morte de familiares ou amigos.

Sinceramente, em situações como as que vi, não acredito que elas vivam. Seria algo muito mais próximo à sobrevivência. São vidas que se esforçam para sonhar com um futuro melhor, que, infelizmente, passa pelas mãos de governos desinteressados ou incapazes de planejar soluções para os problemas sociais.

E, então, nos dias que seguem, surge uma matéria sobre maus tratos e descaso no atendimento a um idoso em um posto de saúde municipal, outra sobre investigações de fraudes em sorteio de moradias a pessoas que sobrevivem à beira do Quilombo, apuração de contratos superfaturados, gastos desnecessários, propinas e outras coisas. Tudo isso, repetidas vezes, é capaz de desanimar qualquer um a crer num futuro de igualdade social.

As aspas que abrem este texto também abrem uma canção composta por Chico Buarque e Vinicius de Moraes, homônima ao título desta postagem. Nada mais justo do que terminar com o final da composição. "E eu, que não creio, peço a Deus por minha gente. É gente humilde. Que vontade de chorar!".

Artigo publicado no jornal O Liberal, de Americana, hoje, 03/11/11.

Abaixo, a canção e a letra.



"Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar"

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