quinta-feira, 29 de março de 2012

Sem raça definida

Ouve-se nas primeiras semanas das escolas de jornalismo, quando o aluno ainda sequer tem a noção do que seja o gancho da reportagem, que a notícia possui dois lados. Ai de quem se esqueça de entrevistar fulano ou sicrano. É pedir para ouvir as broncas do professor ou se envergonhar com uma nota medíocre. Com poucos meses de profissão, porém, e talvez após alguns semestres de universidade, aprende-se naturalmente que não existem dois lados ou duas versões, mas sim vários ou várias.

O dever do jornalista com a sociedade prevê que o profissional a entenda e a traduza ao leitor, portanto, limitar-se a ouvir um e outro torna a reportagem pobre, o contexto mal definido e o fato mal transmitido. Dá margem a reações instantâneas, infundadas e, por vezes, cruéis. A cobertura in loco, ou seja, onde os fatos acontecem, geralmente traz resultados mais satisfatórios. Detalhes que poderiam dar outro viés ao assunto são muito mais perceptíveis quando se sai a campo para “farejar” a notícia.

Percebi tais efeitos em diversas reportagens sobre o ataque de um "pitbull” a cinco pessoas, em Sumaré, no dia 22 de março. No afã de ser o primeiro veículo a dar a matéria, a raça, conhecida pela ferocidade, foi cravada por praticamente todos os jornais como autora dos ataques, o que, obviamente, despertou a ira de leitores, em especial, dos mais conectados. O relato do incidente foi recheado de versões pobres e clichês e o dono do cão, massacrado verbalmente.

Responsáveis por apurar as informações do ataque, este repórter e o repórter fotográfico foram aos bairros onde as vítimas haviam sido mordidas. Por volta das 10h da manhã, o dono do cão, Antonio Cândido, baiano de Caitité, de 78 anos, morador de uma casa onde um famoso vereador petista ainda tem a candidatura a deputado estampada no muro, apareceu quase que em câmera lenta e fisicamente estafado pela idade. Quando íamos começar o papo, surge o “pitbull”.

Espantei-me com a tamanha fragilidade do cão. As costelas à mostra, as patas traseiras prestes a desabar, um olhar assustado e a melancolia do dia quebrada pela presença de estranhos. O focinho lembrava o de um pitbull, mas o animal de Cândido estava longe de representar a raça. Ainda assim, no pôr do sol anterior, o vira-lata foi mais esperto que o frágil dono e escapou quando o portão se abriu a uma amiga que vinha de visita. Ouvi, então, dos próprios atacados as diversas versões e, cruzando com a de outras testemunhas e autoridades, cheguei à conclusão que foi estampada neste jornal no dia 24 de março: um cão qualquer (e não um monstro com um dono incompetente) em um dia de fúria. Depois de tudo que li e vi, me senti com o dever cumprido.

O Liberal, 29/03/2012

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