Um dos escândalos políticos mais graves e estrondosos da
história recente está prestes a tomar contornos definitivos. O julgamento do
“mensalão petista” tem grande chance de se realizar ainda neste semestre e,
querendo ou não, poderá causar marolas, ou até ondas e tsunamis, no processo
eleitoral marcado para outubro, quando munícipes de todo o país elegem
representantes locais.
A relevância do julgamento do mensalão
se denota logo pelas proporcionalidades do caso. Serão 38 réus ouvidos pelo
STF, o Supremo Tribunal Federal, que tentará identificar a culpa ou a inocência
em crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa,
corrupção passiva, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta. Entre os
38 figuram homens fortes da política nacional no ano de 2005, como o
ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares,
o publicitário Marcos Valério e o ex-presidente do PTB, Roberto Jefferson (responsável
por denunciar o esquema).
Como se não bastasse, o envolvimento do então presidente
Luiz Inácio Lula da Silva é dado como inevitável. O próprio admitiu em 17 de
julho de 2005, em uma entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, que “o que o PT
fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil sistematicamente”.
Lula se referia à história de que o partido havia montado um caixa abastecido
com recursos “duvidosos” para bancar a reeleição em 2006. Claramente engasgado,
afirmou na sequência que “as pessoas não pensaram direito no que estavam
fazendo” e que “o PT tem na ética uma de suas marcas mais
extraordinárias”.
Leonardo Attuch, na época jornalista da revista IstoÉ, aposta
no livro-reportagem A CPI que abalou o Brasil (Futura, 2006) que as palavras de
Lula foram praticamente a admissão das irregularidades. “O próprio presidente
da República, com a maior naturalidade, assumia um crime cometido no seu
partido, apostando que seria perdoado porque seus antecessores haviam feito o
mesmo”, escreve.
Especula-se na imprensa nacional, no entanto, que pressões
intrapartidárias e entre órgãos federais já tratam de forçar o despiste do
julgamento, algo, infelizmente, peculiar à política brasileira, que traz em seu
léxico verbos como amenizar, abafar, postergar e omitir.Ao resto do país, a
pressão favorável ao julgamento e aos esclarecimentos é possível e se faz
extremamente necessária, ainda que o campo lexical da maioria da população em
relação à política seja composto por dois verbos: esquecer e suportar.O caso do
mensalão é grave e merece muita atenção.
O Liberal, 26/04/2012
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