sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mensalão


Um dos escândalos políticos mais graves e estrondosos da história recente está prestes a tomar contornos definitivos. O julgamento do “mensalão petista” tem grande chance de se realizar ainda neste semestre e, querendo ou não, poderá causar marolas, ou até ondas e tsunamis, no processo eleitoral marcado para outubro, quando munícipes de todo o país elegem representantes locais. 

A relevância do julgamento do mensalão se denota logo pelas proporcionalidades do caso. Serão 38 réus ouvidos pelo STF, o Supremo Tribunal Federal, que tentará identificar a culpa ou a inocência em crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta. Entre os 38 figuram homens fortes da política nacional no ano de 2005, como o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o publicitário Marcos Valério e o ex-presidente do PTB, Roberto Jefferson (responsável por denunciar o esquema).

Como se não bastasse, o envolvimento do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva é dado como inevitável. O próprio admitiu em 17 de julho de 2005, em uma entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, que “o que o PT fez do ponto de vista eleitoral é o que é feito no Brasil sistematicamente”. Lula se referia à história de que o partido havia montado um caixa abastecido com recursos “duvidosos” para bancar a reeleição em 2006. Claramente engasgado, afirmou na sequência que “as pessoas não pensaram direito no que estavam fazendo” e que “o PT tem na ética uma de suas marcas mais extraordinárias”.  

Leonardo Attuch, na época jornalista da revista IstoÉ, aposta no livro-reportagem A CPI que abalou o Brasil (Futura, 2006) que as palavras de Lula foram praticamente a admissão das irregularidades. “O próprio presidente da República, com a maior naturalidade, assumia um crime cometido no seu partido, apostando que seria perdoado porque seus antecessores haviam feito o mesmo”, escreve. 

Especula-se na imprensa nacional, no entanto, que pressões intrapartidárias e entre órgãos federais já tratam de forçar o despiste do julgamento, algo, infelizmente, peculiar à política brasileira, que traz em seu léxico verbos como amenizar, abafar, postergar e omitir.Ao resto do país, a pressão favorável ao julgamento e aos esclarecimentos é possível e se faz extremamente necessária, ainda que o campo lexical da maioria da população em relação à política seja composto por dois verbos: esquecer e suportar.O caso do mensalão é grave e merece muita atenção. 

O Liberal, 26/04/2012

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