Localizado na região leste da cidade, bairro que abriga 1.600 famílias oferece condições precárias aos moradores
O bairro Jardim Nova Europa vive em situação precária. Parte dele parece
ter saído de um filme de guerra. Ruas de terra totalmente esburacadas,
esgoto correndo a céu aberto, falta de rede coletora, uma cratera
causada pela erosão do solo, entulho acumulado, mato alto em terrenos
abandonados, além da poeira vermelha que se espalha durante todo o dia,
levantada pelos poucos automóveis que conseguem circular pelas vias
irregulares. Em conversa com diversos moradores do bairro, uma
frase foi recorrente. "O Jardim Nova Europa parece um bairro que foi
esquecido pela Prefeitura".
A reportagem do LIBERAL percorreu as
vias mais precárias do local, onde vivem cerca de 1.600 famílias, e
ouviu relatos da população.As ruas Boa Vista, Floriano Peixoto, Costa e Silva, João Pessoa e Hermelindo Miguel Oliveira lembram o cenário de uma cidade rural, pouco desenvolvida, o que contrasta com a imagem comum de Hortolândia: um município em constante crescimento, abrigo de multinacionais e responsável por uma das maiores arrecadações da região.
Na Rua Boa Vista, duas moradoras mãe e filha comentam a situação. "Por aqui não tem nem como passar carro. É impossível sair no meio de tanto buraco. Quando chove, não tem nem como sair de casa", critica a aposentada Neusa Cabral, que vive há quatro anos no bairro. A filha, Rose Cabral, concorda. "É um absurdo deixarem tudo isso acontecer há tanto tempo", diz ela, depois de oito anos morando no Nova Europa.
No final da Boa Vista, uma cratera se formou com a erosão do solo. Ninguém sabe explicar como o buraco surgiu, mas os perigos que ele traz já causaram transtornos a alguns. Uma dona de casa que preferiu se manter anônima conta que o filho quase despencou barranco abaixo. "Ele vinha brincando com a bola e de repente ela começou a rolar em direção ao buraco", relembra. "O menino foi correndo atrás dela, mas não conseguiu pegá-la. Ela caiu lá dentro e ele quase não conseguiu parar. Tive que comprar outra, mas ele podia ter se machucado feio".
O ajudante de pedreiro Paulo Santana, que mora há um ano e meio no bairro, acredita que o maior problema é a falta da rede de esgoto. "Enquanto não fizer a rede, isso não vai melhorar", diz. De acordo com os moradores, recentemente, canos foram instalados em algumas vias, mesmo assim, Santana critica. "O certo era concluir logo. Fazem pela metade e vão deixando, só pra dizer que começaram as obras". Na garagem do ajudante, há uma moto, que ele diz ser complicada de manobrar nas ruas do bairro. "Pra sair com ela dá um trabalhão. Carro, então, nem se fale. É comum ter que ajudar a desatolar", brinca.
Na Rua Costa e Silva, a dona de casa Cleuza Maria Telles vive há 13 anos e no último mês pagou R$ 175 de IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano). Antiga moradora do Jardim Santana, ela diz que o bairro atual já foi pior, no entanto, espera que as coisas mudem. "Hoje, deu uma melhorada, mas ainda é muito ruim. Tem vários terrenos baldios, que trazem escorpiões e ratos para as casas vizinhas. Ninguém cuida e a Prefeitura não toma providência". De frente à casa de Cleuza, Humberto Rodrigues, aposentado, trabalha com na cerca do terreno vizinho à casa onde mora. Questionado sobre a situação do bairro, ele sentencia. "Dos que eu conheço, é o pior da cidade. Teve gente aqui que já passou uma semana sem sair com o carro por causa dos problemas nas ruas. Moro aqui há 15 anos e sempre foi assim".
Outro lado
A Prefeitura de Hortolândia, em resposta à reportagem, informou que diversas obras estão em andamento no bairro e que muito dos problemas se devem a erros em administrações passadas. Segundo informações do secretário de Obras, Marcelo Zanibon, o loteamento do Jardim Nova Europa foi aberto em 1996, no governo do então prefeito Jair Padovani (hoje, vereador pelo DEM). "Os terrenos foram comercializados, de forma irregular, sem obras básicas de infraestrutura. Por causa disso, os moradores não têm escritura dos imóveis", explicou Zanibon.
Prefeitura critica administrações passadas
A Administração Municipal informou que tem prevista uma série de obras. De acordo com o secretário de Obras, Marcelo Zanibon, durante o mandato do atual prefeito, Ângelo Augusto Perugini (PT), a Prefeitura tem trabalhado para levar melhorias à população do bairro. "Para corrigir erros de administrações passadas, Perugini assumiu as obras que eram de responsabilidade do loteador e vai cobrar a imobiliária na Justiça. O Jardim Nova Europa recebe investimentos nunca vistos antes", afirmou.
Atualmente, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) realiza a instalação da rede de esgoto. A secretaria ressaltou que os moradores já podem pedir para a Sabesp a ligação das residências à rede coletora. Até o início de maio, a Prefeitura deve iniciar o asfaltamento nas vias secundárias do bairro.
Uma USF (Unidade de Saúde da Família) será construída no Nova Europa com capacidade para atender 1.200 famílias. O investimento é de R$ 766 mil. A unidade fica na Rua Wanderley Paes Soares, nº 301. O prédio abrigará consultório médico, de enfermagem e odontológico. Também terá salas de vacinação, aplicação de medicamentos e de inalação.
A Prefeitura também iniciou a construção de uma praça no local, localizada no cruzamento das ruas Wanderley Paes Soares e Jacareí. O projeto arquitetônico prevê campo de areia, parque infantil, academia de ginástica ao ar livre, piso ecológico feito com blocos de concreto intertravado, lixeira seletiva, iluminação e grama. Para construir a praça, a Administração investirá R$ 351 mil. Todas as obras serão entregues à população até o final deste ano.
Viaduto está há três anos no papel
Prometida há três anos, a construção de um viaduto entre o Parque Bandeirantes, em Sumaré, e o Jardim Nova Europa, que facilitaria o tráfego da população, ainda não saiu do papel. Em março de 2009, a Prefeitura anunciou que as obras estavam na mão do governo estadual. Ela afirma que "já fez a parte dela" para viabilizar a construção após elaborar e encaminhar o pré-projeto técnico do viaduto ao DER (Departamento de Estradas de Rodagem), que foi aprovado pelo Estado.
Atualmente, para cruzar de um bairro a outro, os pedestres têm de passar pela linha férrea que divide as duas cidades. Os carros precisam dar voltas que podem passar pela fronteira de Campinas. No local onde o viaduto será construído, há grande quantidade de entulho, jogado por moradores. De acordo com um comerciante da região, até produtos químicos estariam sendo despejados por empresas.
A implantação do viaduto facilitará o deslocamento dos moradores de um bairro para o outro sem utilizar a linha férrea. Também criará uma saída para o fluxo industrial pela Rodovia Anhanguera. O viaduto projetado pela Prefeitura de Hortolândia terá duas pistas de rolamento de veículos e passagem para pedestres, com uma alça de acesso à Rua Cristóvão Colombo, no Jardim Nova Europa.
O Liberal, 08/04/2012
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