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sábado, 21 de janeiro de 2012

O amor não se afoga

Karla Martins dos Santos, 37 anos, é viúva do mecânico Nelson Marinho Filho, de 40 anos. Na semana que o avião da Air France, voo 447, que levava seu marido para Paris caiu no mar, ela descobriu que estava grávida. Um ano depois, seu filho Caio Maximus, de 4 meses não tem o nome do pai no documento pois Nelson ainda é considerado desaparecido. A casa que Nelson construía no terreno dos pais, na zona oeste do Rio de Janeiro, ficou inacabada. (Notícia publicada no O Estado de S. Paulo, dia 30 de maio)

Um gato pulou o muro e passou correndo por entre as pernas de Karla. Sem se assustar, ela encarava, paralisada, a casa que, junto do marido, havia começado a construir. As madeiras que ajudariam a sustentar a construção da laje estavam todas empilhadas num canto do terreno. Era pra ser um sobrado, mas sequer a parte de baixo estava acabada. Além do gato, um velho cão esquálido passeava com a língua de fora, procurando por qualquer coisa que o alimentasse. Caminhava com certa melancolia, a qual Karla se identificou imediatamente. A tristeza rondava por ali.

Escolheram a zona oeste do Rio de Janeiro para realizarem o sonho de um novo lar que abrigasse os filhos que pretendiam ter. O fato de ser um sobrado foi fruto de uma boa argumentação do marido, Nelson. Karla queria mesmo uma casa que lhe poupasse o sobe e desce de escadas. Sonhava com uma sala espaçosa e uma varanda onde pudesse receber as amigas dela e os amigos dele nos animados churrascos que não tinham dia ou hora para acontecer. A casa seria grande, do tamanho das condições que tinham para bancá-la. Não podia se dizer que ganhavam mal, pois o dinheiro do trabalho, principalmente de Nelson, mecânico em uma plataforma de petróleo, ajudava a manter a construção e todos os sábados, quando o marido estava no continente, saíam para jantar num restaurante em Ipanema, próximo à avenida Vieira Souto.

Karla não saía da casa da mãe há meses, mas naquele dia, resolvera conhecer o novo shopping da cidade. Precisava comprar um presente para o irmão e queria se distrair. Porém, ao passar num cruzamento, tomou a direção contrária que a levaria para casa e rumou até a construção. Quando desceu do carro, seus olhos marejaram e só não desabou em lágrimas porque um homem a interrompera, de súbito, perguntando se gostaria de comprar panos de prato.

Deu alguns passos para o lado, olhou para a rua deserta e resolveu entrar. Imaginou como seria a vida por ali. Nelson era alegre e bem disposto em qualquer situação. Karla o imaginava bancando o mestre-cuca na cozinha espaçosa e, por vezes, sonhava que assistiria à centena de filmes que compravam só por acharem a capa interessante. Construiriam uma sala só para abrigá-los, com uma grande TV e um belo sofá-cama, que coubesse o casal e as crianças. Mas o gato voltara à cena, miando baixinho, o suficiente para Karla despertar. Percebeu que o sonho continuaria sendo sonho. Nelson se fora. É considerado desaparecido pelo fato de que o voo que o levaria a Paris ter caído no mar, num acidente que toda a imprensa acompanhou e que ainda é envolto de mistérios.

Quando entrou no carro, não conseguiu dar a partida. Chorava como uma criança. Ainda pensa no marido todos os dias, principalmente quando observa o filho, de apenas um mês, dormir no berço que Nelson se apaixonara na véspera de sua ida à França, quando passeavam pelas lojas do centro da cidade. O marido sequer sabia que Karla estava grávida, pois foi na mesma semana do acidente que ela descobriu. De dez em dez dias, Karla contava os minutos para buscar Nelson, que retornava do trabalho na plataforma e desembarcava no porto carioca. Ela sempre vai amá-lo, mesmo sabendo que nunca mais o verá voltar do mar.

Adendo ao Samba da Benção

"Quem dera Vinicius e a poesia
estarem tão vivos hoje em dia,
eu juro, eu faria uma canção.
E se Antônio fizesse-me o favor
de cantar-me um pouquinho sobre o amor
era certa a presença de João."

SBO, 1º de abril de 2011

72 rotações

Vinil e câmera das antigas formam geração de jovens analógicos

(http://www1.folha.uol.com.br/folhateen/897873-vinil-e-camera-das-antigas-formam-geracao-de-jovens-analogicos.shtml) - Notícia publicada no site da Folha de S. Paulo em 04/04/2011

Querido vovô, depois de algum tempo amaldiçoando meus pais por terem se mudado para esta cidade cinzenta e amontoada que é São Paulo, vejo que as coisas não estão tão ruins assim. Hoje, fui àquela velha sebo que me indicou no aniversário de mamãe. Pra falar a verdade, o lugar é um pouco pior do que o senhor havia me contado. As ruas por lá são bem desertas e, vez por outra, é possível observar tipos estranhíssimos caminhando com caneta, bloco de anotação e óculos Wayfarer pendurados no canto da boca. Serão eles promessas literárias? Alguns até fumam incessantemente. Não importa.

Conversando com o senhorzinho que administra o local, percebi que as doações e vendas para a sebo estão decadentes. Durante o nosso papo, ele passou o tempo todo repetindo que as pessoas não têm mais preocupação com os objetos culturais. Livros, discos, CDs, revistas, são todos jogados no lixo ao invés de serem trocados por algo útil nas lojas como a dele. Não concordei nem discordei, mas disse que se dependesse de mim, ele teria uma pequena ajuda para manter o acervo. Semana passada, estive fuçando no escritório de papai e me esbarrei com uma coleção de livros infantis da década de 70. Que coisa! Hoje em dia, eles seriam bobíssimos para as crianças que nem vão a cursos de informática e já nascem com um exímio manejo de mouses, teclados, softwares e internet. Estou pensando em levar os livrinhos nesta semana.

Depois de ouvir os lamentos do senhorzinho, consegui encontrar uma edição especial de músicas do Vinicius, que traz quatro LPs e um livreto sobre canções. A capa é belíssima. Um retrato de Vinicius com o olhar perdido. O preço foi salgado, 70 reais, o que pôs fim ao dinheiro que havia ganhado no meu aniversário. Claro que meus livros da faculdade também contribuíram para essa pequena crise financeira. Papai tem me ajudado muito, mas as finanças também não andam bem lá na empresa.

Bom. É isso. Espero que as coisas estejam tranqüilas aí no interior. Os Correios já entregaram as fotos da reflex? As minhas ficaram lindas. Efeitos incríveis nas tiradas com a Lomo. Agradeça à vovó mais uma vez pela câmera. Foi um dos melhores presentes que ganhei em toda a minha existência de quase 19 anos.

Esperamos vocês aqui pro aniversário da Clarinha. A menina quase derrubou a reflex esses dias, mas estou feliz por ter pego-a de surpresa ouvindo o disco do Menescal. Agora ela passa o dia inteiro cantarolando “o barquinho vai, a tardinha cai...”. O senhor não pode perder isso! É lindo.

Um beijo de sua neta preferida.
Beijos à vovó também.
Marina.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sempre não é todo dia

Domingo, 31 de outubro de 2010

Quisera o destino, talvez por brilho (e quem havia de dizer ou quem havia de contrariá-lo), que no início fosse uma paixão de bar, nascida num momento ébrio e espontâneo. Embora lhe dissesse que o tempo passaria rápido, a garota não se conformava com a distância que os separavam. Por descuido ou displicência, deixara que o garoto lhe tomasse o coração, numa paixão arrebatadora, nunca antes experimentada. Suas amarguras e a desilusão, típicas de sua adolescência, se dissipavam ao ouvir as mesmas palavras que ansiava por dizê-las: eu te amo.

Nas noites de um inverno tenso, no coração do garoto se opunham a distância real, física, e a distância sentimental, mas esta era quem lhe trazia conforto. Tentava crer que não havia segredo nenhum e que era fácil manter um coração ligado ao outro. Mesmo assim, sofria. Como cantava Vinicius, “o amor só é bom se doer”. Pois este que vivia, pensava o garoto, devia ser estupendo, acachapante.

Gostavam de passar momentos ao léu quando se encontravam. Juntos, contavam estrelas e cantarolavam “Bandolins”. Nas tardes quentes da cidade dela, o menino se punha ao seu lado, deitado, e encarava-a como se fosse uma escultura, uma beleza comparável à lua e flor. Percorrendo as curvas de seu corpo, tocando-lhe carinhosamente a pele das maçãs do rosto, a delicadeza de uma fruta orvalhada, sentia os mesmos arrepios que nela provocava. O único som que se ouvia no quarto escurecido era a voz de Oswaldo Montenegro dedilhando melancolicamente “Rio Descoberto”. No vão que separava a face de um e de outro era possível perceber os ruídos de uma respiração calma e ritmada. “Farei de tudo para amá-la e para que me ame”, confessava. “Digo-te o mesmo. Se puder, sem medo. E, enquanto puder, para sempre”.

Entre essas e outras vezes que viajava ao seu encontro, o menino acordava durante a noite e escrevia-lhe um poema, geralmente, sobre a tristeza do amor tão distante ou sobre as travessuras que faziam nos dias de férias. Em tempo, a menina lhe dedicava modernas declarações virtuais. Contavam os dias, as semanas e agora tinham de esperar por meses para matarem a saudade. Desta vez, esperam pelo tempo das águas, um escaldante dezembro de verão. O mês promete.


domingo, 18 de dezembro de 2011

Lembranças de um bairro barbarense

O Cidade Nova, em Santa Bárbara d’Oeste, é um bairro de classe média. Descendo ou subindo perpendicularmente as ruas que cortam a principal, a do Linho, você encontrará tanto casas geminadas quanto casas de terreno inteiro, de 250 metros quadrados. Elas são simples. Muitos lares já contam com portões eletrônicos, mas os gradis ainda predominam. É comum uma pessoa estar dentro de casa e, ao ouvir o rangido de algum portão, dizer: fulano acabou de chegar.

Na rua onde vivi meus primeiros dezoito anos de vida, a Belo Horizonte, no número 926, a rotina era pacata durante os dias de semana. Pela manhã, as crianças que ainda não tinham idade escolar brincavam nas calçadas com suas bolas, motocas, patinetes e bonecos, sempre observadas atentamente pelas mães, que aproveitavam o momento para falar sobre o último capítulo da novela, dividir uma nova receita ou especular sobre aquela vizinha recém-chegada que ainda não se entrosara. Quando o relógio marcava meio-dia, o sol se punha a rachar a cabeça dos meninos e meninas que voltavam dos colégios estaduais do bairro. No verão, a essa hora, o asfalto fervia e na rua as pessoas só se encontravam debaixo da copa das árvores.

Somente no final da tarde, quando os jovens do período vespertino retornavam das escolas, a rua voltava a ficar agitada. Antes de pôr as tarefas em dia, os garotos jogavam bola no meio do asfalto, com pedras de calçada servindo-lhes de trave e as guias como linha-lateral, e as meninas pulavam amarelinha ou jogavam vôlei com bolas de dez reais compradas no mercado ou em alguma farmácia. E novamente, as donas de casa saíam a papear umas com as outras, mas, agora, na companhia dos maridos, que já chegaram da jornada do trabalho e colocaram as cadeiras de cerdas de plástico à beira do portão.

Quando chegava o sábado era comum a rua ficar cheia por todo o dia. No entanto, o fim de semana trazia uma forma de animação que irritava a muitos vizinhos da Belo Horizonte. Sempre havia algum jovem que tratava de lavar o carro com o som no máximo. E quem dera os gostos musicais fossem degustáveis. Não, não eram. A vizinhança toda era obrigada a ouvir as letras de funks depreciativos ou dos raps criminosos. Vez ou outra, rolavam discussões entre o dono do som e algum vizinho que trabalhava em turnos e precisava dormir em horários alternativos.

Os domingos eram os melhores dias. Após o almoço, rodas de mulheres conversando na sombra das árvores já surgiam. Bastava uma delas por a cadeira na frente de casa que outras já se aproximavam. Um encontro inconsciente, independente de combinados. Todas sabiam o que fazer depois de servir a macarronada e lavar a louça. Uma levava o crochê, outra servia um doce novo que havia preparado e sempre uma delas se achegava dizendo que não podia ficar muito, pois os trabalhos domésticos se acumulavam. Esta era a que ficava até o fim do papo.

As rodas de conversa não eram uma exclusividade feminina. Mas para os homens o encontro tinha regra. Das quatro às seis horas da tarde, nenhum deles aparecia. O motivo era o futebol transmitido na TV. Claro que nem sempre o jogo era interessante ou o time não andava tão bem, e aí os encontros se antecipavam, mas geralmente o papo era embalado pelos resultados das partidas. “Que golaço do Paulo Nunes, hein?”. “Ficou 2 a 0 mesmo? Cochilei no finalzinho...”, diziam.

E assim, enquanto os homens papeavam sobre esporte e trabalho, sentados na beirada dos portões, as mulheres riam em suas cadeiras de área, e os moleques perdiam a ponta dos dedões no futebol do asfalto, findava-se mais uma semana no Cidade Nova. O final do domingo era anunciado por volta das sete e meia, quando os vizinhos iam para o banho ou para o jantar. Os garotos esbaforidos do futebol, vencidos pelos pais e pela noite que caía, praguejavam contra a escola do dia seguinte.

Hoje, morando uns quarteirões acima do Cidade Nova e da rua Belo Horizonte, vejo o quanto me foi prazeroso viver por lá, onde a rua era uma extensão do quintal de todas as casas. Eram poucos os que se escondiam dentro dos muros. Cerca elétrica era algo inexistente e que não se fazia necessário. Quando alguém planejava uma festa, tão importante quanto chamar os parentes era chamar os vizinhos, aqueles com quem havia um contato cotidiano e cujos laços de amizade beiravam o laço familiar.

A tendência, dizem especialistas, é cada vez mais pessoas encerradas no seu próprio mundo, vivendo de maneira individualista. É uma pena, porque quem viveu num lugar como eu sabe que ter de trancar o portão e atender ao interfone é uma baita tristeza. Cidade Nova, tenho saudade.

domingo, 5 de junho de 2011

Paraíso

A minha frente eu enxergaria um descampado, onde homens e mulheres conversam animadamente. Além deles, também há crianças e elas parecem felizes, pois correm, gritando freneticamente, gritos agudos, risos e sorrisos e as pipas que empinam colorem e contrastam com o azul límpido que se espalha por todos os pontos cardeais. Junto a elas, eu vejo cães passeando sem coleiras, com os pêlos limpos, lisos, claros, escuros, manchados. Eles me parecem tão bonitos e tão dóceis. Eu estou sentado sobre uma grama limpa e maravilhosamente verde, num tom agradável que se espalha por todo o horizonte. E sobre mim, uma árvore enorme trata de me prover sombra. Poderia ser um parque.

Ao meu lado esquerdo, eu sinto um calor inigualável, que, no entanto, não me faz suar e cansar. Pelo contrário, me estimula, se infiltra pelos poros da minha pele e me dá uma sensação também inigualável. São pessoas simples que estão ao meu lado. Elas também conversam animadamente e riem, riem muito. Incessantemente. Mas, de repente, todo o falatório cessa. O silêncio não os perturba. Estas pessoas estão me encarando, esperando que eu diga algo e, então, eu finalmente digo algo e vejo surgir sorrisos em todas elas, um a um. E eles voltam a rir. Poderiam ser meus amigos.

Ao meu lado direito, também tem alguém. Eu sinto que minha mão está sendo segurada com uma força delicada. A pele é fina e morna e, por vezes, quando se mexe, me provoca arrepios. Eu percorro com o olhar a pele fina e chego a um rosto, um lindo rosto, sereno, calmo, delicado, com pequenas sardas abaixo dos olhos. Neste rosto, há também um sorriso. Há algo mais. Talvez haja um sentimento de segurança, que me parece mútuo, porque eu também sinto. Algo me parece certo. O olhar que encaro é de alguém que jurei amar eternamente. Eu consigo sentir isso e sinto ser atraído pelos lábios dela. Até que duas crianças surgem. São as mesmas que empinavam as pipas e corriam alegres. Elas me abraçam e se jogam no meu colo. Estão muito agitadas, mas quando se acalmam, eu enxergo um sorriso comum em uma e uma serenidade interessante em outra. Poderiam ser minha esposa e meus filhos.

Por trás de mim eu vejo surgir uma mão que pousa em meu ombro. Ela é pesada, mas não me amedronta. Por incrível que pareça, eu também sinto segurança nela e sinto que ela também já esteve ali em vários momentos da minha vida. São duas pessoas que se aproximam e sussurram algo em meu ouvido. Consigo entender apenas o final, “...bem-vindo”. Poderiam ser meus pais.

Dentro de mim, não há nada que me doa ou que me indisponha. Sinto que não há com o que se preocupar. Sinto-me completo e feliz. Minhas angústias se foram, os remédios sumiram, os ruídos não me incomodam e nem as pessoas. Tudo o que eu quero é ficar ali, porque o sol já está se pondo e descubro que o lado oeste é justamente para onde miro meus olhos. E assim, todas aquelas pessoas que estão próximas a mim se acalmam. Há um certo tipo de comoção. Alguns olhares se perdem, como o meu. O sol vai se pondo, deixando apenas metade de sua circunferência à vista no horizonte. O azul que dominava a paisagem agora se decompõe em cores que variam do amarelo ao laranja. A escuridão se aproxima, mas não há nada que nos faça temer, porque logo surge a lua e as crianças voltam a correr, as risadas recomeçam e eu sinto um calor e um novo arrepio. Poderia ser o paraíso.

Santa Bárbara d’Oeste, 28 de novembro de 2010 - Madrugada