terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Sempre não é todo dia

Domingo, 31 de outubro de 2010

Quisera o destino, talvez por brilho (e quem havia de dizer ou quem havia de contrariá-lo), que no início fosse uma paixão de bar, nascida num momento ébrio e espontâneo. Embora lhe dissesse que o tempo passaria rápido, a garota não se conformava com a distância que os separavam. Por descuido ou displicência, deixara que o garoto lhe tomasse o coração, numa paixão arrebatadora, nunca antes experimentada. Suas amarguras e a desilusão, típicas de sua adolescência, se dissipavam ao ouvir as mesmas palavras que ansiava por dizê-las: eu te amo.

Nas noites de um inverno tenso, no coração do garoto se opunham a distância real, física, e a distância sentimental, mas esta era quem lhe trazia conforto. Tentava crer que não havia segredo nenhum e que era fácil manter um coração ligado ao outro. Mesmo assim, sofria. Como cantava Vinicius, “o amor só é bom se doer”. Pois este que vivia, pensava o garoto, devia ser estupendo, acachapante.

Gostavam de passar momentos ao léu quando se encontravam. Juntos, contavam estrelas e cantarolavam “Bandolins”. Nas tardes quentes da cidade dela, o menino se punha ao seu lado, deitado, e encarava-a como se fosse uma escultura, uma beleza comparável à lua e flor. Percorrendo as curvas de seu corpo, tocando-lhe carinhosamente a pele das maçãs do rosto, a delicadeza de uma fruta orvalhada, sentia os mesmos arrepios que nela provocava. O único som que se ouvia no quarto escurecido era a voz de Oswaldo Montenegro dedilhando melancolicamente “Rio Descoberto”. No vão que separava a face de um e de outro era possível perceber os ruídos de uma respiração calma e ritmada. “Farei de tudo para amá-la e para que me ame”, confessava. “Digo-te o mesmo. Se puder, sem medo. E, enquanto puder, para sempre”.

Entre essas e outras vezes que viajava ao seu encontro, o menino acordava durante a noite e escrevia-lhe um poema, geralmente, sobre a tristeza do amor tão distante ou sobre as travessuras que faziam nos dias de férias. Em tempo, a menina lhe dedicava modernas declarações virtuais. Contavam os dias, as semanas e agora tinham de esperar por meses para matarem a saudade. Desta vez, esperam pelo tempo das águas, um escaldante dezembro de verão. O mês promete.


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