domingo, 18 de dezembro de 2011

Lembranças de um bairro barbarense

O Cidade Nova, em Santa Bárbara d’Oeste, é um bairro de classe média. Descendo ou subindo perpendicularmente as ruas que cortam a principal, a do Linho, você encontrará tanto casas geminadas quanto casas de terreno inteiro, de 250 metros quadrados. Elas são simples. Muitos lares já contam com portões eletrônicos, mas os gradis ainda predominam. É comum uma pessoa estar dentro de casa e, ao ouvir o rangido de algum portão, dizer: fulano acabou de chegar.

Na rua onde vivi meus primeiros dezoito anos de vida, a Belo Horizonte, no número 926, a rotina era pacata durante os dias de semana. Pela manhã, as crianças que ainda não tinham idade escolar brincavam nas calçadas com suas bolas, motocas, patinetes e bonecos, sempre observadas atentamente pelas mães, que aproveitavam o momento para falar sobre o último capítulo da novela, dividir uma nova receita ou especular sobre aquela vizinha recém-chegada que ainda não se entrosara. Quando o relógio marcava meio-dia, o sol se punha a rachar a cabeça dos meninos e meninas que voltavam dos colégios estaduais do bairro. No verão, a essa hora, o asfalto fervia e na rua as pessoas só se encontravam debaixo da copa das árvores.

Somente no final da tarde, quando os jovens do período vespertino retornavam das escolas, a rua voltava a ficar agitada. Antes de pôr as tarefas em dia, os garotos jogavam bola no meio do asfalto, com pedras de calçada servindo-lhes de trave e as guias como linha-lateral, e as meninas pulavam amarelinha ou jogavam vôlei com bolas de dez reais compradas no mercado ou em alguma farmácia. E novamente, as donas de casa saíam a papear umas com as outras, mas, agora, na companhia dos maridos, que já chegaram da jornada do trabalho e colocaram as cadeiras de cerdas de plástico à beira do portão.

Quando chegava o sábado era comum a rua ficar cheia por todo o dia. No entanto, o fim de semana trazia uma forma de animação que irritava a muitos vizinhos da Belo Horizonte. Sempre havia algum jovem que tratava de lavar o carro com o som no máximo. E quem dera os gostos musicais fossem degustáveis. Não, não eram. A vizinhança toda era obrigada a ouvir as letras de funks depreciativos ou dos raps criminosos. Vez ou outra, rolavam discussões entre o dono do som e algum vizinho que trabalhava em turnos e precisava dormir em horários alternativos.

Os domingos eram os melhores dias. Após o almoço, rodas de mulheres conversando na sombra das árvores já surgiam. Bastava uma delas por a cadeira na frente de casa que outras já se aproximavam. Um encontro inconsciente, independente de combinados. Todas sabiam o que fazer depois de servir a macarronada e lavar a louça. Uma levava o crochê, outra servia um doce novo que havia preparado e sempre uma delas se achegava dizendo que não podia ficar muito, pois os trabalhos domésticos se acumulavam. Esta era a que ficava até o fim do papo.

As rodas de conversa não eram uma exclusividade feminina. Mas para os homens o encontro tinha regra. Das quatro às seis horas da tarde, nenhum deles aparecia. O motivo era o futebol transmitido na TV. Claro que nem sempre o jogo era interessante ou o time não andava tão bem, e aí os encontros se antecipavam, mas geralmente o papo era embalado pelos resultados das partidas. “Que golaço do Paulo Nunes, hein?”. “Ficou 2 a 0 mesmo? Cochilei no finalzinho...”, diziam.

E assim, enquanto os homens papeavam sobre esporte e trabalho, sentados na beirada dos portões, as mulheres riam em suas cadeiras de área, e os moleques perdiam a ponta dos dedões no futebol do asfalto, findava-se mais uma semana no Cidade Nova. O final do domingo era anunciado por volta das sete e meia, quando os vizinhos iam para o banho ou para o jantar. Os garotos esbaforidos do futebol, vencidos pelos pais e pela noite que caía, praguejavam contra a escola do dia seguinte.

Hoje, morando uns quarteirões acima do Cidade Nova e da rua Belo Horizonte, vejo o quanto me foi prazeroso viver por lá, onde a rua era uma extensão do quintal de todas as casas. Eram poucos os que se escondiam dentro dos muros. Cerca elétrica era algo inexistente e que não se fazia necessário. Quando alguém planejava uma festa, tão importante quanto chamar os parentes era chamar os vizinhos, aqueles com quem havia um contato cotidiano e cujos laços de amizade beiravam o laço familiar.

A tendência, dizem especialistas, é cada vez mais pessoas encerradas no seu próprio mundo, vivendo de maneira individualista. É uma pena, porque quem viveu num lugar como eu sabe que ter de trancar o portão e atender ao interfone é uma baita tristeza. Cidade Nova, tenho saudade.

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