domingo, 18 de dezembro de 2011

23% dos docentes da rede estadual estão afastados na RPT

Problemas de saúde mantêm 1,1 mil professores fora das salas de aula

A professora Maria* (nome fictício) deixou a sala de aula há cinco meses. Ela alega que não esperava que ser professora de uma escola da rede pública, em Santa Bárbara d'Oeste, pudesse ser tão difícil. "É complicado explicar o que me irrita mais. Se é a agitação dos alunos, o ambiente precário, o pó do giz ou a falta de sucesso na aprendizagem", conta. Os fatores citados, no entanto, desencadearam um problema muito bem definido. Maria tem depressão e faz parte de mais de 1,2 mil professores estaduais e municipais afastados por razões médicas na Região do Polo Têxtil.

Segundo números das secretarias estaduais de Educação e de Gestão Pública, a saúde debilitada é a causa do afastamento de 1.111 educadores dos colégios estaduais na região. O número nas cinco cidades ainda é baixo se comparado com o total de professores em licença para tratamento de saúde no Estado, 49.739. Regionalmente, porém, corresponde a 23% do quadro do magistério estadual da RPT.

A cidade de Sumaré, detentora do maior quadro de educadores estaduais, lidera as licenças no âmbito regional. Dados atuais da Gestão Pública apontam que 333 professores, de 1.453, estão afastados por motivos de saúde. Em seguida, figuram Santa Bárbara d'Oeste (265), Americana (263), Hortolândia (202) e Nova Odessa (48). A Secretaria de Educação informou que transtornos ansiosos, problemas de coluna, cordas vocais, depressão e ginecológicos estão entre as principais doenças motivadoras de licença dos docentes. A pasta não soube especificar qual seria a principal.

Em relação às escolas municipais, com exceção de Americana (que não respondeu à reportagem), o ranking de afastados também é encabeçado por Sumaré, com 66 professores de licença médica, mas a porcentagem é menor, 7,7%. No total, as quatro cidades somam 186 afastados no quadro composto por 2867 educadores.

Ainda no município sumareense, de acordo com o Sesmet (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), da Prefeitura, 80% dos afastamentos são devido à depressão. Em Hortolândia, a Administração citou a mesma doença, além de problemas ortopédicos e respiratórios como as principais causas de licenças.

CONSEQUÊNCIAS
Maria se sente envergonhada ao comentar o assunto e, por isso, pediu discrição à reportagem. Assim como ela, grande parte dos educadores sofre com problemas psicológicos, alguns mais, outros menos. Quando ainda estão em atuação, os sintomas são refletidos dentro das classes, com a incapacidade de atrair a atenção dos alunos e com o desestímulo de preparar e passar o conteúdo. O reflexo também pode acontecer de maneira inversa.

A psicóloga e mediadora em uma escola estadual de Americana, Ilma Boraschi, explica que o desempenho na sala de aula pode afetar a saúde e o lado emocional dos educadores. "O professor se frustra quando planeja uma aula e não consegue ministrá-la de uma maneira satisfatória. Parto da premissa de que, se trabalhamos com crianças e adolescentes, é porque gostamos. Nós temos um ideal mas, com o decorrer do tempo, esse ideal vai se frustrando", afirma.

A descrença no trabalho e as situações encontradas, de acordo com a psicóloga, geram um desgaste no professor. A conselheira e vice-coordenadora da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Irenice Neri, cita ainda outros problemas. "A sobrecarga, o estresse do dia a dia e classes lotadas fazem com que o professor adoeça". Segundo ela, o sindicato realiza pesquisas sobre a saúde dos educadores e busca dar orientações sobre o assunto a quem necessita. Mesmo assim, ela não hesita em dizer que a situação "é grave".

Professor deve fazer reflexão

Para a coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade de Campinas), Maria Márcia Sigrist Malavasi, não há uma receita para preparar um professor para entrar nas salas de aula. Segundo ela, o que existe é um trabalho que as faculdades fazem a partir de seus currículos, sobre as didáticas, práticas e metodologias de ensino.

Além disso, ela ressalta o trabalho de reflexão sobre a profissão. "Hoje, mais do que uma parte prática, é preciso incentivar o professor a refletir sobre a própria prática, ou seja, por que ele é professor, o que ele faz na sala, qual a repercussão de suas ações", explica.

Baseada em pesquisas, a coordenadora afirma que os problemas de saúde que os docentes sofrem não surgem nos primeiros anos de magistério. "As pesquisas dizem que o adoecimento se dá a partir de 10, 12 anos. O professor não adoece quando chega à sala de aula, mas quando permanece nela".

Em São Paulo, a psicóloga Flávia Gonçalves Silva é autora de uma dissertação de mestrado cujo objetivo foi analisar o dia a dia profissional de quatro professoras da rede estadual em São Paulo e como o trabalho proporcionou-lhes prazer ou problemas de saúde. A publicação, disponível na íntegra na Biblioteca Virtual da PUC-São Paulo, aborda as dificuldades e como, apesar dos percalços, as professoras continuam a exercer o trabalho no magistério.

"A investigação revelou que as condições inadequadas e alienadoras encontradas pelos professores para executar sua atividade estavam ocasionando adoecimentos relacionados, principalmente, com as emoções e sentimentos desses profissionais (estresse, labirintite, depressão) gerando também outras doenças, como foi o caso de dois professores", diz um trecho do trabalho. De acordo com o trabalho, a escola pública brasileira não vem conseguindo ensinar os alunos a "aprender a aprender".

Atividades recreativas amenizam problemas

Nas cidades da RPT, alguns projetos municipais tentam combater o afastamento de professores motivado por problemas de saúde. A Secretaria de Educação e Saúde Ocupacional de Hortolândia realiza uma série de ações de acolhimento ao professor. Neste ano, uma assistente social foi contratada para cuidar especificamente dos profissionais da educação.

Foram dadas orientações aos gestores para acolher os professores e ficarem atentos aos problemas psicológicos e físicos. Para o ano que vem, a Prefeitura pretende implantar a Casa do Educador, onde o servidor terá massagem, psicólogo, assistente social, dança, ginástica e outras atividades.

Segundo o Sesmet, em Sumaré há uma psicóloga que avalia e acompanha os casos crônicos. Existe também, desde junho, um trabalho em andamento com levantamento estatístico detalhado sobre causas dos afastamentos de professores. O objetivo é fazer um estudo e combater o problema, detectando eventuais abusos e tratando casos que houver necessidade. O estudo será concluído no primeiro semestre de 2012 e apresentado às secretarias.

Governo de SP investe para reduzir licenças

O Governo do Estado criou o programa SP Educação com Saúde no início deste ano, com o objetivo de oferecer não só ações preventivas, mas também suporte para funcionários que apresentem problemas de saúde. Nesses casos, eles serão encaminhados para tratamento de acordo com a especialidade médica. Com o programa, espera-se reduzir a incidência de problemas como estresse ocupacional, doenças osteomusculares, sobrepeso, obesidade, sedentarismo, hábitos alimentares inadequados, hipertensão, diabetes, transtornos mentais e tabagismo.

O programa recebeu R$ 27 milhões em investimentos para reduzir faltas e licenças médicas. Nesta fase inicial, o projeto está em andamento em 13 diretorias de ensino e 1.057 escolas estaduais da capital, beneficiando 69 mil servidores. As unidades participantes do projeto-piloto realizado entre 2007 e 2008 apresentaram redução significativa no número de faltas e licenças médicas solicitadas por professores. Na Escola Estadual Lasar Segall, na Vila Mariana, em São Paulo, por exemplo, a diminuição chegou a 77%.

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