domingo, 5 de junho de 2011

Paraíso

A minha frente eu enxergaria um descampado, onde homens e mulheres conversam animadamente. Além deles, também há crianças e elas parecem felizes, pois correm, gritando freneticamente, gritos agudos, risos e sorrisos e as pipas que empinam colorem e contrastam com o azul límpido que se espalha por todos os pontos cardeais. Junto a elas, eu vejo cães passeando sem coleiras, com os pêlos limpos, lisos, claros, escuros, manchados. Eles me parecem tão bonitos e tão dóceis. Eu estou sentado sobre uma grama limpa e maravilhosamente verde, num tom agradável que se espalha por todo o horizonte. E sobre mim, uma árvore enorme trata de me prover sombra. Poderia ser um parque.

Ao meu lado esquerdo, eu sinto um calor inigualável, que, no entanto, não me faz suar e cansar. Pelo contrário, me estimula, se infiltra pelos poros da minha pele e me dá uma sensação também inigualável. São pessoas simples que estão ao meu lado. Elas também conversam animadamente e riem, riem muito. Incessantemente. Mas, de repente, todo o falatório cessa. O silêncio não os perturba. Estas pessoas estão me encarando, esperando que eu diga algo e, então, eu finalmente digo algo e vejo surgir sorrisos em todas elas, um a um. E eles voltam a rir. Poderiam ser meus amigos.

Ao meu lado direito, também tem alguém. Eu sinto que minha mão está sendo segurada com uma força delicada. A pele é fina e morna e, por vezes, quando se mexe, me provoca arrepios. Eu percorro com o olhar a pele fina e chego a um rosto, um lindo rosto, sereno, calmo, delicado, com pequenas sardas abaixo dos olhos. Neste rosto, há também um sorriso. Há algo mais. Talvez haja um sentimento de segurança, que me parece mútuo, porque eu também sinto. Algo me parece certo. O olhar que encaro é de alguém que jurei amar eternamente. Eu consigo sentir isso e sinto ser atraído pelos lábios dela. Até que duas crianças surgem. São as mesmas que empinavam as pipas e corriam alegres. Elas me abraçam e se jogam no meu colo. Estão muito agitadas, mas quando se acalmam, eu enxergo um sorriso comum em uma e uma serenidade interessante em outra. Poderiam ser minha esposa e meus filhos.

Por trás de mim eu vejo surgir uma mão que pousa em meu ombro. Ela é pesada, mas não me amedronta. Por incrível que pareça, eu também sinto segurança nela e sinto que ela também já esteve ali em vários momentos da minha vida. São duas pessoas que se aproximam e sussurram algo em meu ouvido. Consigo entender apenas o final, “...bem-vindo”. Poderiam ser meus pais.

Dentro de mim, não há nada que me doa ou que me indisponha. Sinto que não há com o que se preocupar. Sinto-me completo e feliz. Minhas angústias se foram, os remédios sumiram, os ruídos não me incomodam e nem as pessoas. Tudo o que eu quero é ficar ali, porque o sol já está se pondo e descubro que o lado oeste é justamente para onde miro meus olhos. E assim, todas aquelas pessoas que estão próximas a mim se acalmam. Há um certo tipo de comoção. Alguns olhares se perdem, como o meu. O sol vai se pondo, deixando apenas metade de sua circunferência à vista no horizonte. O azul que dominava a paisagem agora se decompõe em cores que variam do amarelo ao laranja. A escuridão se aproxima, mas não há nada que nos faça temer, porque logo surge a lua e as crianças voltam a correr, as risadas recomeçam e eu sinto um calor e um novo arrepio. Poderia ser o paraíso.

Santa Bárbara d’Oeste, 28 de novembro de 2010 - Madrugada

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Homenagem a Jack Kerouac

A juventude é uma fase em que nos colocamos à disposição de todos os tipos de idéias, conceitos e pensamentos que nos influenciarão e, muito provalmente, formarão nosso caráter.

Há cerca de dois anos, vagando por uma das únicas livrarias da cidade, me deparei com um livro chamado "Os Vagabundos Iluminados", de um autor que eu nunca havia ouvido falar. O nome dele estava impresso em letras maiores que a do próprio título. Era um tal de Jack Kerouac, americano, de origem franco-canadense, nascido em 1922, em Lowell, Massachusetts. O que realmente me atraiu foi quando folheei as páginas, li alguns trechos e percebi a intensidade da narrativa de Kerouac, algo quase impossível de se ler em voz alta, sufocante, despreocupado com pontos e vírgulas, interessado apenas em passar ao leitor todo o fluxo de idéias que havia na cabeça e nos diários do autor.

Até aquele momento, eu lia qualquer livro que todo mundo lia, que estivesse entre os mais vendidos ou na lista dos obrigatórios para os vestibulares. Leitura não era problema, no entanto, eu ainda não havia definido gostos particulares. Pois então, no dia em que terminei de ler "Os Vagabundos Iluminados", descobri muito mais do que um novo autor ou gênero da literatura. Descobri a efervescência do jazz, que dá ritmo às palavras datilografadas por Kerouac, descobri o gosto pela escrita, pelos diários, descobri ser mais preconceituoso do que imaginava, descobri que acreditava nas histórias e nas idéias de homens simples, que buscavam conhecer a vida através de experiências pessoais e não de estudos científicos ou teorias ridículas.

Descobri, em um livro de Kerouac, chamado On The Road, que mais tarde tornou-se um clássico, o valor das amizades, e mais importante, o valor da cumplicidade e da empatia entre os seres humanos, algo que nos dias atuais, acredito, nos faz uma falta tremenda.

Kerouac fez parte de uma geração denominada beat, que na década de cinquenta iniciou um movimento de contracultura, que desestimava o capitalismo e o american way of life. Poetas e prosadores como Allen Ginsberg, William Burroughs, Gergory Corso, ou simplesmente personagens-heróis da literatura beat, como Neal Cassady e claro, Jack Kerouac, percorriam as infinitas milhas do continente americano com um diário no bolso, a humildade nos olhos e o amor à palavra escrita.

A minha geração não conhece literatura beat, não conhece Charlie Parker, não conhece Bob Dylan e nem sequer tem a coragem de pedir carona na estrada. Pois eu me sinto privilegiado por aquele momento epifânico na livraria. Eu agradeço a Jack Kerouac.

*Texto publicado no jornal O Liberal (de Americana), seção Opinião, em 21/10/2009 – 40 anos de morte de Kerouac