terça-feira, 7 de junho de 2011

Gracias, Ronnie!

Lembro-me da final da Copa de 98. Ronaldo e a expressão doentia. A trombada com Barthez. O fracasso de um grande camisa 9 e o apogeu de um grande camisa 10. Foi ali que comecei a me aproximar do futebol.

Quatro anos depois, um Ronaldo inspiradíssimo faria dois gols na final contra a Alemanha e o mundo iria ao seus pés. Não foi diferente comigo. Tornou-me um ídolo. Logo, a transferência para o Real Madrid, em agosto de 2002, me levou a me aficcionar por los que juegan en la calle de Concha Espina. Neste endereço, mais precisamente a localização do Santiago Bernabéu, estádio madridista, que vi (pela televisão, infelizmente) Ronaldo, ao vivo, marcar o primeiro gol contra o modesto Alavés.

Na beira do campo, ele ouve os recados do técnico Vicente Del Bosque e se prepara. Ao lado dele está Santiago Solari, meia, camisa 21. Mas Solari não havia marcado dois gols na final da última Copa do Mundo e nem fazia sua estreia pelo clube. Esta, quem fazia era Ronaldo.

A camisa 11 lhe sobrando nos cotovelos, a Mercurial Vapor prateada da final da Copa, um brinco na orelha esquerda e uma expressão seríssima no rosto. Estreno de Ronaldo!

Sai o garoto Javier Portillo. Entra Ronaldo. O jogo recomeça, Roberto Carlos domina na esquerda e lança. Uma bola que voa pelos ares foge dos zagueiros e encontra o peito de Ronaldo, onde estampa-se o escudo madridista. Um remate de primeira, consciente e feroz. Madridistas em euforia. O abraçam Cambiasso, depois Solari, Roberto Carlos, Zizou, Makelélé, Helguera, Hierro, Figo. "Viva el madridismo! Viva Ronnie!". Logo depois, un contra puxado por Zidane, que liga com McManaman e do inglês para Ronaldo. Golllllllll del Madrid! Golllllllll de Ronaldo, diria o narrador da Punto Radio. Foi ali que comecei a gritar hala Madrid!



Na mesma temporada, três gols em Old Trafford, numa quarta-de-final inesquecível de Champions contra o Manchester United de Beckham e Van Nistelrooy. E depois, mais gols e menos gols, e sua saída cabisbaixa do clube espanhol. Não importa. Aos madridistas, Ronaldo é uma lenda. Gracias, Ronnie!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Quem Dera

Certa noite, vinha de uma festa com meus pais e um senhor que cuidara do churrasco e havia pego uma carona conosco. Esse senhor trabalhou na prefeitura de Americana por muitos anos e hoje é aposentado. No meio do caminho, entre um assunto e outro, acabou nos contando algumas histórias e também uma de suas maiores decepções sofridas como funcionário público.

Num certo dia, lhe foi confiada a tarefa de depositar 480 mil reais em alguns bancos da cidade, já que trabalhava no departamento financeiro. O dinheiro estava dividido em quatro cheques de 100 mil e o resto em espécie. Após o vai e vem de um banco a outro, o senhor chegou na agência para depositar um dos cheques e se deu conta de que o havia perdido. Obviamente, ficou muito preocupado, haja vista, 100 mil reais não era quantia que se perdesse, principalmente por um mero subordinado do poder municipal. Revirou completamente a maleta que carregava os cheques, porém, nada encontrou. A tensão do momento fez com que a pressão do homem subisse e ele acabou sofrendo um derrame. Dois dias depois, no hospital, ele mesmo acabou encontrando o cheque dentro da própria maleta.

A decepção ocorreu quando o senhor já estava para conseguir a aposentadoria. A contragosto, ele foi convencido pelo prefeito da época a dar entrada nos procedimentos para se aposentar, pois, mesmo assim, ele ainda teria o emprego garantido. Então, acreditou na palavra do político e aposentou-se.

Após alguns meses parado, chegou a época de eleição e o senhorzinho, então, trabalhou intensamente a favor da candidatura do homem que lhe prometera a continuidade de seu cargo. O prefeito se reelegeu, entretanto, esqueceu-se da promessa que fizera ao funcionário e este acabou desempregado.

A situação vivida pelo homem ao perder os 100 mil reais parece impossível de acometer um político que desvia a mesma quantia dos cofres públicos, ou seja, um dinheiro que não é seu, mas sim de toda a população. Dificilmente, um prefeito sofrerá um derrame ao saber que os seus eleitores podem morrer diante das péssimas condições de um hospital que conta com o apoio da prefeitura.

É triste e vergonhosa a extrema ganância que nossos políticos têm e que culminam em manchas históricas não só na política, mas também no caráter do povo brasileiro. Quem dera a maioria dessa classe tivesse a preocupação com 100 mil reais como teve o senhorzinho churrasqueiro que conheci, quem dera tivéssemos uma maioria interessada em construir uma sociedade digna de se viver e não um luxuoso castelo para se morar.

domingo, 5 de junho de 2011

Paraíso

A minha frente eu enxergaria um descampado, onde homens e mulheres conversam animadamente. Além deles, também há crianças e elas parecem felizes, pois correm, gritando freneticamente, gritos agudos, risos e sorrisos e as pipas que empinam colorem e contrastam com o azul límpido que se espalha por todos os pontos cardeais. Junto a elas, eu vejo cães passeando sem coleiras, com os pêlos limpos, lisos, claros, escuros, manchados. Eles me parecem tão bonitos e tão dóceis. Eu estou sentado sobre uma grama limpa e maravilhosamente verde, num tom agradável que se espalha por todo o horizonte. E sobre mim, uma árvore enorme trata de me prover sombra. Poderia ser um parque.

Ao meu lado esquerdo, eu sinto um calor inigualável, que, no entanto, não me faz suar e cansar. Pelo contrário, me estimula, se infiltra pelos poros da minha pele e me dá uma sensação também inigualável. São pessoas simples que estão ao meu lado. Elas também conversam animadamente e riem, riem muito. Incessantemente. Mas, de repente, todo o falatório cessa. O silêncio não os perturba. Estas pessoas estão me encarando, esperando que eu diga algo e, então, eu finalmente digo algo e vejo surgir sorrisos em todas elas, um a um. E eles voltam a rir. Poderiam ser meus amigos.

Ao meu lado direito, também tem alguém. Eu sinto que minha mão está sendo segurada com uma força delicada. A pele é fina e morna e, por vezes, quando se mexe, me provoca arrepios. Eu percorro com o olhar a pele fina e chego a um rosto, um lindo rosto, sereno, calmo, delicado, com pequenas sardas abaixo dos olhos. Neste rosto, há também um sorriso. Há algo mais. Talvez haja um sentimento de segurança, que me parece mútuo, porque eu também sinto. Algo me parece certo. O olhar que encaro é de alguém que jurei amar eternamente. Eu consigo sentir isso e sinto ser atraído pelos lábios dela. Até que duas crianças surgem. São as mesmas que empinavam as pipas e corriam alegres. Elas me abraçam e se jogam no meu colo. Estão muito agitadas, mas quando se acalmam, eu enxergo um sorriso comum em uma e uma serenidade interessante em outra. Poderiam ser minha esposa e meus filhos.

Por trás de mim eu vejo surgir uma mão que pousa em meu ombro. Ela é pesada, mas não me amedronta. Por incrível que pareça, eu também sinto segurança nela e sinto que ela também já esteve ali em vários momentos da minha vida. São duas pessoas que se aproximam e sussurram algo em meu ouvido. Consigo entender apenas o final, “...bem-vindo”. Poderiam ser meus pais.

Dentro de mim, não há nada que me doa ou que me indisponha. Sinto que não há com o que se preocupar. Sinto-me completo e feliz. Minhas angústias se foram, os remédios sumiram, os ruídos não me incomodam e nem as pessoas. Tudo o que eu quero é ficar ali, porque o sol já está se pondo e descubro que o lado oeste é justamente para onde miro meus olhos. E assim, todas aquelas pessoas que estão próximas a mim se acalmam. Há um certo tipo de comoção. Alguns olhares se perdem, como o meu. O sol vai se pondo, deixando apenas metade de sua circunferência à vista no horizonte. O azul que dominava a paisagem agora se decompõe em cores que variam do amarelo ao laranja. A escuridão se aproxima, mas não há nada que nos faça temer, porque logo surge a lua e as crianças voltam a correr, as risadas recomeçam e eu sinto um calor e um novo arrepio. Poderia ser o paraíso.

Santa Bárbara d’Oeste, 28 de novembro de 2010 - Madrugada

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Homenagem a Jack Kerouac

A juventude é uma fase em que nos colocamos à disposição de todos os tipos de idéias, conceitos e pensamentos que nos influenciarão e, muito provalmente, formarão nosso caráter.

Há cerca de dois anos, vagando por uma das únicas livrarias da cidade, me deparei com um livro chamado "Os Vagabundos Iluminados", de um autor que eu nunca havia ouvido falar. O nome dele estava impresso em letras maiores que a do próprio título. Era um tal de Jack Kerouac, americano, de origem franco-canadense, nascido em 1922, em Lowell, Massachusetts. O que realmente me atraiu foi quando folheei as páginas, li alguns trechos e percebi a intensidade da narrativa de Kerouac, algo quase impossível de se ler em voz alta, sufocante, despreocupado com pontos e vírgulas, interessado apenas em passar ao leitor todo o fluxo de idéias que havia na cabeça e nos diários do autor.

Até aquele momento, eu lia qualquer livro que todo mundo lia, que estivesse entre os mais vendidos ou na lista dos obrigatórios para os vestibulares. Leitura não era problema, no entanto, eu ainda não havia definido gostos particulares. Pois então, no dia em que terminei de ler "Os Vagabundos Iluminados", descobri muito mais do que um novo autor ou gênero da literatura. Descobri a efervescência do jazz, que dá ritmo às palavras datilografadas por Kerouac, descobri o gosto pela escrita, pelos diários, descobri ser mais preconceituoso do que imaginava, descobri que acreditava nas histórias e nas idéias de homens simples, que buscavam conhecer a vida através de experiências pessoais e não de estudos científicos ou teorias ridículas.

Descobri, em um livro de Kerouac, chamado On The Road, que mais tarde tornou-se um clássico, o valor das amizades, e mais importante, o valor da cumplicidade e da empatia entre os seres humanos, algo que nos dias atuais, acredito, nos faz uma falta tremenda.

Kerouac fez parte de uma geração denominada beat, que na década de cinquenta iniciou um movimento de contracultura, que desestimava o capitalismo e o american way of life. Poetas e prosadores como Allen Ginsberg, William Burroughs, Gergory Corso, ou simplesmente personagens-heróis da literatura beat, como Neal Cassady e claro, Jack Kerouac, percorriam as infinitas milhas do continente americano com um diário no bolso, a humildade nos olhos e o amor à palavra escrita.

A minha geração não conhece literatura beat, não conhece Charlie Parker, não conhece Bob Dylan e nem sequer tem a coragem de pedir carona na estrada. Pois eu me sinto privilegiado por aquele momento epifânico na livraria. Eu agradeço a Jack Kerouac.

*Texto publicado no jornal O Liberal (de Americana), seção Opinião, em 21/10/2009 – 40 anos de morte de Kerouac